“Temos uma imagem renovada no Andulo” disse a Administradora local Celeste Elavoco David Adolfo,

O advento da paz, a 4 de Abril de 2002, constitui-se no marco referencial para as transformações sociais e económicas do município do Andulo, província do Bié.

Segundo município com maior índice de crescimento populacional e económico daquela localidade do Centro do país, depois do Cuito, Andulo já começa a “colher” os frutos do período pós-guerra, e caminha firme rumo ao crescimento económico.

Ao menos é esta a convicção da administradora municipal Celeste Elavoco David Adolfo, que concedeu uma entrevista exclusiva à ANGOP, para falar, detalhadamente, sobre a realidade actual do munício e os grandes desafios da sua gestão.

Nesta conversa, conduzida pelo jornalista Pascoal Bernardo, a gestora pública fala sobre os avanços em vários sectores da actividade social e económica, dos programas em curso para reduzir as assimetrias e para melhorar a qualidade de vida das comunidades.

Celeste Elavoco refere-se, em concreto, das transformações registadas no sector da saúde, da educação, da energia e águas e da hotelaria, deixando claro que o Andulo ainda é uma cidade cheia de desafios, mas com esperança de vir a ter um futuro promissor.

Bié: Administradora do Andulo, Celeste Elavoco David Adolfo

ANGOP – Andulo, a par do Cuito, foi uma das cidades mais “fustigadas” do Bié durante a guerra pós-eleitoral de 1992, que destruiu dezenas de infra-estruturas. Como descreve hoje a localidade, volvidos 19 anos de paz efectiva?

Celeste Elavoco David Afonso (CEDA) – Falar do Andulo é, sem dúvidas, falar de um dos mais dinâmicos municípios da província em termos de ascensão. O advento da paz, a 4 de Abril de 2002, constitui-se no marco referencial para as transformações sociais e econômicas da região. Em 2002, por exemplo, não havia (aqui) quase nada do que temos hoje. Só para termos ideia, não havia sequer hospedaria para quem viesse visitar a região. A vila era toda esburacada e as marcas do conflito armado eram muito fortes e visíveis em cada folha, cada árvore, cada parede e rua.

Entretanto, hoje temos uma imagem renovada, que inspira prosperidade e alegria. As ruas da sede do município estão completamente asfaltadas e as vias de acesso aos bairros periféricos estão também todas terraplanadas. Em 2002, era impensável falar de iluminação pública, água tratada,  turismo, educação, saúde e agricultura, porque o solo estava cheio de minas de guerra.

O rosto das pessoas refletia preocupação, dúvida e quase falta de esperança. Hoje, o Andulo assume-se como a Terra de Inclusão, Progresso e Prosperidade,  com oportunidade para todos, promovendo a igualdade social e a unidade entre todos. Os ganhos são difíceis de enumerar, e precisaríamos de muitos dias para contar a história de conquistas do Andulo. Em 2002, por exemplo, havia no município apenas 12 salas de aulas de construção definitiva, mas hoje temos 316. Temos, inclusive, uma centralidade habitacional que beneficia a juventude e não só.

Havia algumas dezenas de professores e muitos alunos fora do sistema de ensino, mas hoje temos mais de mil professores e pouco menos de 14 mil alunos fora do sistema de ensino. Temos melhor assistência médica e medicamentosa em quase toda a extensão do território e grande parte dos campos já são cultiváveis, sendo que os agricultores estão organizados em cooperativas e associações agrícolas. 

ANGOP– Falou em pouco menos de 14 mil alunos fora do sistema de ensino, actualmente. Em concreto, qual é a realidade do sector do Educação, no geral?

CEDA – O município tem 168 escolas, perfazendo 884 salas de aulas, que atendem desde o ensino primário ao II ciclo do ensino secundário. Conta com mil 535 professores, para 75 mil e 344 alunos matriculados no presente ano lectivo. Neste momento, controlamos 14 mil e 124 alunos fora do Sistema Nacional de Ensino, mas este número poderá reduzir para menos de nove mil, com a entrada em funcionamento, já no próximo ano lectivo, de mais 50 novas salas de aulas, em construção no âmbito do PIIM, sendo que mais de 5 mil crianças poderão ter acesso à escola.

ANGOP – Quantas salas de aulas e quantos professores necessitam para conseguir enquadrar todas as crianças que se encontram fora do sistema escolar?

CEDA – Para que todas as crianças possam estar no sistema de ensino, o município precisa de 150 novas salas de aula e mais de 400 novos professores.

ANGOP – Pelo que conseguimos notar, não é apenas no domínio da educação que tem havido ganhos. Em termos sanitários, quais os avanços conseguidos até hoje?

CEDA – O município tem uma rede sanitária composta por três hospitais, um centro materno infantil, três centros de saúde e 31 postos de saúde, que contam com oito  médicos, dos quais sete nacionais e um de nacionalidade cubana, e 232 enfermeiros. A OMS recomenda um médico para cada mil pessoas, todavia temos no município um médico para cada 44 mil e 741, uma vez que a população do Andulo é de 313 mil e 191 habitantes, diferença esta que nos preocupa muito. Por isso, precisa-se de 110 novos médicos de distintas especialidades, e 620 outros efectivos, entre enfermeiros e técnicos de enfermagem, para dar resposta à demanda.

ANGOP – Para que possa falar em qualidade de serviços, em particular nos sectores da Educação e Saúde, é fundamental a existência de energia eléctrica e água potável. Isso já é uma realidade no Andulo ou ainda é utopia?

CEDA – A Energia e Água são um factor preponderante e impulsionador para a melhoria da qualidade de vida das populações. Por isso, esta área do sector social está também entre as prioridades da Administração do Município. Nos dias actuais, o fornecimento de energia eléctrica é feito à base de grupos geradores, em número e capacidade ainda muito reduzidos. Neste momento, a capacidade geral que temos é de 1.2 Megawatts (MW). A rede de iluminação pública comporta 288 postos de iluminação, sendo que apenas 17 por cento está em funcionamento.

Entre os grandes desafios, está a construção de uma central térmica com 2.2 MW de potência e 9 Km de rede de média tensão e 19.6 Km de baixa tensão para ligações domiciliares e iluminação pública (paralisada no momento). Numa primeira fase, serão instalados 5 dos 9 PTs previstos, nos bairros Seabra, Boavista, Económico, Hospital e rua 4 de Fevereiro. Outro projecto é a central híbrida (Solar e térmica) para injeção de mais 2.2 MW, totalizando 4.4 MW, o que vai potenciar e dinamizar a economia local e trazer mais conforto às pessoas. No âmbito do Programa Água para Todos (PAT), o principal sistema de abastecimento de água é por captação, tratamento e distribuição, mas está longe de cobrir a necessidade. As outras fontes de abastecimento de água são as cacimbas/poços e a água dos rios. A maior parte da população tem acesso à água para o consumo, fazendo recurso a poços/furos e rios para o caso das populações das zonas mais recônditas.

Na cidade, o abastecimento é feito das 06 às 12 horas, sendo 260 ligações domiciliares, nove chafarizes (5 vandalizados), beneficiando mais de 8000 famílias. Actualmente existem 118 pontos de água, sendo 4 sistemas de captação, tratamento e distribuição, 114 furos, sendo 30 pequenos sistemas de água (PSA), dos quais 21 avariados e apenas nove (30 por cento) estão funcionais. A taxa de cobertura de abastecimento municipal anda à volta de 15-22 por cento da população. Certamente, ainda estamos muito longe do desejado, mas acreditamos no futuro.

ANGOP – A água é essencial para o projecto de relançamento da agricultura no Andulo, actividade que já teve grande impacto nos primeiros anos do período pós-independência. Entretanto, regista-se, nos últimos tempos, redução acentuada de chuva. Até que ponto isso pode comprometer a campanha agrícola 2020/2021?

CEDA – A falta de chuva pode comprometer em grande medida a presente campanha agrícola até 50 por cento de toda a produção. Precisamos de rezar para que a situação não se prolongue por mais dias. As principais culturas em risco nesta localidade são o milho, o feijão e a soja. Com a seca, sem dúvidas muitas famílias camponesas terão de enfrentar grandes dificuldades para suprir a necessidade alimentar em seus lares, a escolaridade de seus educandos e muitos outros encargos económicos.

ANGOP – As associações e cooperativas de camponeses têm tido apoios?

CEDA – Os agricultores têm tido do Governo o apoio presente em todas as fases, desde a constituição das cooperativas e associações agrícolas, as escolas de campo e outros. O Governo, através de vários programas de fomento à agricultura, apoia com fornecimento de imputes e insumos agrícolas, entre sementes e fertilizantes, enxadas, catanas, botas de borracha, pequenas moageiras, etc.

ANGOP – Quantas associações e cooperativas existem actualmente e quantos hectares foram preparados para esta campanha agrícola?

CEDA – Andulo tem 480 associações, 47 cooperativas agrícolas e 172 escolas de campo. No presente ano agrícola, foram compactados 15 campos, sendo que 13 são do Programa de Extensão e Desenvolvimento Rural, com 430 hectares, um campo de 50 hectares no âmbito do Programa de Combate à Fome e à Pobreza e um campo do Projecto de Continuidade no âmbito do MOSAP 2, de 230 hectares.

ANGOP – O que se pode falar em relação ao turismo neste município?

CEDA – O turismo aos poucos vai ganhando fôlego. Como se sabe, o município do Andulo tem história particular e desperta muito interesse para o turismo. O facto de ser o segundo maior município da província, também concorre para o interesse turístico. O município conta com uma rede hoteleira que permite dar acomodação a quem pretenda se deslocar a esta região. Temos, essencialmente, dois hotéis ou pensões de referência e quatro hospedarias, distribuídas ao redor da vila. A estrutura arquitectónica da vila é bastante atractiva e surpreende positivamente aos visitantes.

Além disso, o município tem duas grandes missões de referência nacional e na região Austral de África, que vale a pena conhecer, como são os casos da Missão Católica de Chicumbi e da Missão Evangélica de Chilesso. Por outro lado, as águas termais, as quedas de Lau – Lau, que até há pouco tempo figuraram nas notas de quinhentos Kwanzas, e as paisagens do rio Cutato, também fazem deste município uma proposta boa para quem pretenda conhecer os nossos encantos. Portanto, esperamos que os investidores possam identificar zonas de interesse e vir investir nesta região.

ANGOP – No âmbito do PIIM, qual é o valor global atribuído a esse município e para quantos projectos?

CEDA – Em relação ao Plano Integrado de Intervenção nos Municípios, o valor atribuído é de um mil milhão 961 milhões, 763 mil, 291 Kwanzas e 50 cêntimos, para 20 projectos de várias categorias, sendo 14 de empreitadas, cinco de fornecimento e um de prestação de serviço. Concretamente, estamos a falar da construção de cinco escolas, sendo duas de 7 salas de aula, e três de 12 salas de aula, na sede do município e na comuna de Calussinga, projecto de colocação de lancis e construção de passeios na sede do município e na sede da comuna de Calussinga, projecto de construção de uma quadra polidesportiva, um  parque infantil, um edifício para o funcionamento da Administração Comunal de Calussinga. Constam ainda projecto de reabilitação e ampliação do Centro Materno Infantil, terraplanagem de 20 Km de estradas dos bairros periféricos da sede do município, aquisição de uma ambulância, três tratores, três camiões de saneamento básico e de kits de limpeza e saneamento básico do meio e um de prestação de serviço.

ANGOP –Qual é o grau de execução das obras e quanto já foi desembolsado?

CEDA – Neste momento, o grau de execução física é de 66 por cento, enquanto que o de execução financeira é de 69 por cento, sendo que o tempo de acabamento das obras é de nove meses. Importa realçar que o PIIM gerou nesta parcela do país mais de 500 novos postos de trabalho à juventude.

Perfil

Celeste Elavaco David Afonso está à frente do município do Andulo, desde 2017.

A governante, que também já foi administradora do Cunhinga, é membro do Comité Central do MPLA e primeira secretária do partido no município do Andulo.

O Município

Andulo foi elevado à categoria de cidade a 13 de Julho de 1971.

Com uma extensão de dez mil e 700 quilómetros quadrados, o município do Andulo dista a 130 quilómetros a Norte do Cuito, distribuído em quatro comunas (Andulo-sede, Calucinga, Cassumbe e Chivaúlo), 57 povoações e 583 aldeias.

A população do município é maioritariamente camponesa, dedica-se às culturas do milho, trigo, arroz, tubérculos, ginguba e café arábico.

Produz também, em pequena escala, o gergelim, feijão manteiga e feijão-frade e citrinos, além de se dedica à criação de gado.

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