Órfão do 27 de Maio: “De que lado está a verdade?”

“De que lado está a verdade?” é a questão que sobressai das palavras de Sizainga Raul, um dos órfãos do 27 de Maio de 1977. O nome do seu pai foi um dos que o Presidente angolano mencionou, este ano, no discurso de pedido de perdão às vítimas deste episódio trágico da história de Angola. Sizainga Raul perdoou mas defende “uma investigação histórica” para saber, por exemplo, “o que esteve na origem deste massacre”.

Sizainga Raul filho do falecido Domingos Fernandes de Barros “Sabata”

Sizainga Raul tinha apenas dois anos quando o pai, o militar Domingos Fernandes de Barros “Sabata”, desapareceu na sequência do 27 de Maio de 1977. Também a mãe foi presa e torturada mais de um mês. Foram precisas mais de quatro décadas para o governo reconhecer que houve “execuções sumárias” e prometer procurar e restituir os restos mortais às famílias. Sizainga Raul vê o processo de reconciliação nacional como “um passo que já se devia ter dado há mais tempo” e admite que o discurso do Presidente, este ano, no qual ouviu o nome do seu pai, criou “uma sensação de alívio”, mas é preciso mais. Muito mais. Para uma verdadeira reconciliação nacional, o processo precisa de “uma investigação histórica” para saber, por exemplo, quantas vítimas houve, “o que esteve na origem do massacre” e “de que lado está a verdade”.

RFI: Quem era o seu pai e o que lhe aconteceu no 27 de Maio?

Sizainga Raul: “O meu pai era um militar do exército angolano, Domingos Fernandes de Barros ‘Sabata’ que, na altura do 27 de Maio, também foi incluído ou envolvido neste mesmo processo do 27 de Maio e acabou sendo morto no mesmo.”

Tem noção do que é que lhe aconteceu? Porque é que ele foi morto?

“Na verdade, eu na altura era muito pequeno. Eu tinha dois anos, quase não lembro de nada, só as coisas que vão contando. Quando se deu isso, foram a casa em busca dele, ele conseguiu fugir e, em consequência, levaram a minha mãe. A minha mãe é que ficou detida no lugar dele e ele vendo essa situação teve que entregar-se para soltarem a minha mãe. Acontece que a minha mãe continuou detida por mais algum tempo, só mais tarde é que ela foi solta. Do meu pai, nunca mais se ouviu nada.”

A sua mãe esteve presa quanto tempo? Sabe se ela sofreu tortura?

“Foi torturada. Ficou aproximadamente 45 dias detida. Por coincidência, ele fazia anos também no dia 27 de Maio e, nessa altura, ele estava a festejar o aniversário também. Então, tinha aquela agitação, contactos com amigos para festejar e coisas assim e deu aquilo.”

Tem noção porque é que o seu pai foi uma das vítimas do 27 de Maio? Ele fazia parte dos que apoiavam Nito Alves?

“Como lhe disse, eu era pequeno, não posso fazer afirmações assim categóricas mas, segundo o que a minha mãe narra, momentos antes ele teve uma briga com alguém e esteve detido. Ele foi solto no dia 26 de Maio e no dia 27 ele também foi acusado de fazer parte do grupo do Nito Alves.”

E agora, como é que vê este processo de reconciliação nacional?

“De bom grado. É um passo que já se devia ter dado há mais tempo. Vemos isso como uma forma de termos um maior contacto, mesmo que seja só espiritual com o nosso pai, eu e os meus irmãos. Somos africanos e damos um grande valor aos antepassados, saber onde estão os restos mortais é muito importante e traz-nos uma certa paz espiritual. E nós estamos em crer que isso venha a acontecer, estamos esperançosos que isso venha a acontecer de sabermos onde estão os restos mortais do nosso pai.”

Como é que está o processo?

“Eu acredito que esse processo todo é um processo que vai levar algum tempo por causa da natureza do mesmo. Nós já fizemos a solicitação do certificado de óbito, está em curso, estamos à espera de o receber, apesar de acharmos que tem uma certa morosidade, mas estamos à espera. A questão dos testes de DNA, ainda não foram feitos, ainda não fomos solicitados para fazermos essas colheitas e estamos à espera. Estamos esperançosos.

Este processo, no meu modo de ver, deveria ser noutro formato, não acho que devemos responsabilizar criminalmente ou judicialmente as pessoas que estiveram envolvidas nisso mas, para bem da verdade, as coisas deveriam ser melhor esclarecidas.”

Ou seja, que houvesse uma comissão da verdade, uma investigação histórica?

“É mais uma investigação histórica, afinal de contas as gerações vindouras têm que saber, na verdade, o que aconteceu, como aconteceu. Esta é a parte que está a faltar neste processo.”

O que quer saber exactamente? Quantas vítimas houve? Porque é que houve os massacres?

“É basicamente isso. Até hoje não se tem ideia de quantas vítimas este processo deu. O que é que esteve na origem deste massacre. Fala-se em tentativa de golpe de Estado. Será que houve essa tentativa? Como? Hoje, nós vamos encontrando choques nas informações: as informações que nos deram anteriormente e agora as informações que os próprios sobreviventes vão passando. Então, de que lado está a verdade? Eu acho que se devia fazer uma investigação histórica séria e isenta de questões políticas ou de interesses políticos para que as gerações vindouras saibam em concreto o que é que aconteceu. Eu acredito que para evitar situações do género, só sabendo a verdade é que podemos proteger isso.”

O problema é que ainda há responsáveis que estiveram envolvidos na repressão que ainda estão vivos. Se houver esta investigação histórica, se calhar, a verdade vem ao de cima. A verdade ao vir ao de cima, não vai abrir novas feridas e fragilizar ainda mais a sociedade angolana?

“Eu acredito que não. Eu acho que as pessoas devem estar sempre conscientes dos seus actos e saberem que devem responsabilizar-se pelos seus actos. Tem muita gente ainda viva que esteve envolvida directamente neste processo. Sim, estiveram envolvidos. Quer dizer, o que eu estou a dizer não é que se tenha uma responsabilidade criminal ou judicial, não é isso, é simplesmente que venha a verdade dos factos.”

Perdoou a quem matou o seu pai?

“Sim, apesar de não saber de facto quem o matou, mas onde ele esteja perdoei, não com o início deste processo. Felizmente eu fui criado nesse espírito que devia perdoar, que não devia criar mágoas e rancores contra essas pessoas porque não seria bom nem para mim nem para eles. Eu acredito – apesar de ter tido uma infância muito dura – também me fui incutido que o perdão é o melhor caminho.”

Durante a sua infância e depois na vida profissional teve essa conotação de ser filho de alguém ligado ao “fraccionismo”? Isso contou, isso pesou?

“Na minha infância sim. Eu vivi situações muito complicadas que até hoje me marcam. A título de exemplo, eu para ir para a escola tinha que ter a protecção da minha mãe. A minha mãe tinha que levar-me e tinha que ir à minha busca à escola porque era sempre importunado por alguém a chamar-me nomes, até alguns com agressões físicas, mesmo. Mas, na minha vida profissional não porque tive que apagar de quem eu era filho, quase que já ninguém reconhecia de quem eu era filho a não ser as pessoas muito próximas que me viram crescer.”

Que reacção teve quando o Presidente pediu perdão e desculpas pelo que aconteceu no 27 de Maio?

“Foi uma sensação de alívio, de regozijo, um sentimento de paz profunda. Eu acho que o Presidente João Lourenço teve uma atitude de coragem e digna de tirar o chapéu. Ele sabendo de todas as consequências que aquela acção dele poderia trazer na questão política directamente ao partido que ele dirige, teve essa coragem de pedir perdão dos actos que alguns elementos do seu partido cometeram.

Deve ser esse o caminho dos políticos, principalmente africanos, a tratar desses assuntos. Da mesma forma, acredito que outros dirigentes deviam vir também pedir desculpas porque houve este caso do 27 de Maio como houve outros casos também relacionados com outros partidos. Acredito que era altura de chegar alguém e pedir perdão, acredito que faria bem à alma das pessoas que foram lesadas.”

Fonte: RFI

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