“Fomos formatados para sermos pedintes e, na minha condição de cego, piora um pouco”

Salas Neto pode ser considerado uma figura emblemática de Luanda. Quem é afinal esta ilustre personalidade?

Gonçalves Manuel Afonso Neto nasceu, precocemente, no dia 4 de Janeiro de 1960, no bairro Santo Rosa, no Sambizanga.

DOUTOROLOUCURA AGUDA- SALAS NETO

Nasceu no Sambizanga, mas desde muito cedo foi viver no então Bairro Social de São Paulo, hoje conhecido como bairro das B´s e C´s, mas também Bairro Indígena?

Sim, saí do Sambizanga aos três anos e cresci na C-6, local onde vivo até hoje. Fomos uns dos primeiros moradores a chegar.

Vive na mesma casa e rua onde mora a sua mãe?

Vivo na mesma rua, mas um pouco acima da casa da minha mãe. Consegui casa própria aos 55 anos. Desde 1963, vivi sempre nas C’s, com uma passagem fugaz pelo Cassequel do Buraco.

O que representa para ti o bairro das B´s e C´s ou, se preferir, o Bairro Indígena?

É a minha vida. Tenho 61 anos, dos quais 58 passados aqui. Nunca me imaginei a viver num outro bairro. Agora que fiquei cego, penso que foi uma grande sorte ter conseguido a minha casa aqui. Na minha condição, não sei como seria a minha vida naquela confusão dos zangos.

Quais são as cenas que mais lhe marcaram no bairro?

Morava na C-6, mas passava a maior parte do meu tempo na C-5. Os brancos metiam-se sempre comigo, chamando-me “turra”.

Porquê?

Acho que era por causa da minha rebeldia natural. Lembro-me de uma menina branca que se metia sempre comigo. Sempre que estivesse a passar, ela virava em minha direcção a mangueira como que a borrifar o chão para me molhar. Como gostava da brincadeira, transformei a coisa numa espécie de ritual. Sabia a hora que tinha que passar para ser molhado. Era uma espécie de paixão não declarada. Havia também os irmãos Cabixi, uns “brancos sujos” da Madeira, que viviam na C-5. Esses eram os nossos banqueiros. É contra eles que nós descarregávamos a nossa ira, com cocos e galhetas.

Que memórias tens do São Domingos?

Para quem viveu nas C’s, o São Domingos é sempre uma referência obrigatória. Jogávamos lá a “squirrola”, sete e meio e outros jogos. Os padres Agostinho e Apolinário, que operavam como uma espécie de donos do sítio, eram as grandes figuras daquele tempo. Havia outras não menos importantes, como o Adriano, que chegou à Selecção Nacional de Basquetebol, o Ângelo Silva, do 1ºde Agosto e antigo guarda-redes da Selecção Nacional de Futebol, já falecido. Havia, também, no São Domingos uma espécie de praça em miniatura, onde eram comercializadas algumas iguarias, como a “xandula” com peixe frito e molho de tomate. Era divino. Havia, igualmente, bolinhos, paracuca e quissângua.

Onde fez os estudos?

Fiz os estudos primários na “Escola da Micate”, próximo do Campo de São Paulo, actualmente Escola de Ensino Especial. Estudei no Emídio Navarro, na antiga escola Comercial Vicente Ferreira, hoje 1º de Maio, no Njinga Mbandi e no Instituto Normal de Educação (INE), antigo São José de Cluny. Depois experimentei a Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto.

Sei que entrou para o ensino oficial apenas quando tinha 9 anos. Onde é que andou?

Sim, fui para o ensino oficial aos 9 anos, depois de ter concluído a terceira classe numa explicação, que ficava ali onde é hoje o mercado das Pedrinhas, nas imediações do mercado dos Congolenses. O menino Neco, era assim que era conhecido o nosso explicador, era muito famoso naquela altura, um grande professor. Mas quando vou para a escola oficial, o meu aprendizado na explicação não foi tido nem achado, de tal forma que me puseram na iniciação. Depois, transitaram-me da iniciação para a primeira classe. Não sei se vais ter espaço para contar a história toda, mas vou tentar sintetizar o mais possível. Uma vez, a professora mandou-me escrever um texto e eu escrevi três, o que deixou os professores todos espantados. Como é que um estudante da iniciação consegue escrever com esta perfeição toda? interrogavam-se. Para tirar dúvidas, puseram-me a ler uns textozinhos que haviam por ali e, mais uma vez, causou espanto aos professores, devido à perfeição com que o fazia. Isso valeu-me a transição para a primeira classe. Reduziu um pouco o atraso, mas não era o que eu queria. A quarta classe ficava-me muito bem.

Disse em tempos que teria recusado entoar “A Portuguesa” (o hino da República Portuguesa)?

Esta é uma história que vem no meu primeiro livro. Quando viemos para o Bairro Indígena, já se vivia o ambiente revolucionário, por uma razão muito simples. O meu padrasto foi preso, em Maio de 1963, por envolvimento e criação de células clandestinas. Foi um dos julgamentos políticos mais importantes, depois do “Processo 50”. Algumas figuras que estiveram ligadas ao meu padrasto eram Hermínio Escórcio, João Filipe Martins, Cabelo Branco, Roberto de Almeida, Lopo de Nascimento, o Sr. Totocho que, acho, era o Cordeiro da Mata, Bernardo de Sousa, Rui Gonçalves e muitos outros. Foram julgados e condenados. Saíram da cadeia, creio, em 1968 e a primeira coisa que fizeram, logo após à soltura, foi ouvir o “Angola Combatente”. Instruído por eles, ficava na rua para controlar os movimentos dos “bufos”, que podiam surgir a qualquer altura. Acho que esse foi o meu primeiro baptismo na luta contra o colonialismo. É esse ambiente que, se calhar, me tornou o “reguila” que sou hoje.  Aos 11 anos, recusei cantar o hino português e disse: “já não canto mais o hino”.

E qual foi a reacção da professora?

Para dizer a verdade, a professora era minha “panca”, mas mesmo assim participou o caso ao director da escola que, por sua vez, mandou chamar a PIDE-DGS.

Chegou a ser detido?

Houve um alvoroçozinho. Foram me buscar à escola, mas por sorte não me prenderam e sequer investigaram o meu padrasto. Deram, isso sim, uma valente carga de porrada, na sexta esquadra.

Foi um aluno brilhante?

Modéstia à parte, acho que no tempo do colono fui dos poucos pretos que teve 19 na pauta. No Emídio Navarro, eu competia com o Hélder, o irmão do Quim David, que também era muito “barra”. Na sétima classe cheguei a ter um 20 à Física, com o professor Luis Xirila. Ele não acreditou e me forçou a uma segunda prova, vigiada a tempo inteiro por ele.

E qual foi o resultado?

Repeti a proeza. Eles acabaram por me dar o que chamavam 20 expresso.

Considera-se um superdotado?

Agora não, mas já fui. Enquanto vocês se matavam a estudar, eu não precisava nada disso. Assistia as aulas e tudo ficava na cabeça. Já cheguei a fazer duas provas, a minha e a de mais um colega, no mesmo dia, chegando, muitas vezes, o ajudado a ficar com nota maior do que a minha. No geral, eu era o “cara” na sala de aula. Os colegas lutavam para sentarem ao meu lado. Era magnânimo.

Concluiu a faculdade?

Cheguei até ao terceiro ano do curso de Direito.

Não concluiu porquê?

É uma longa história. Depois de a UNITA roubar a minha bolsa de estudo, as coisas complicaram-se.

A UNITA roubou a bolsa de estudo?

Queres que eu fale primeiro sobre o quê? Porquê que não acabei a faculdade ou como me roubaram a bolsa?

Como roubaram a bolsa de estudo?

Eu já estava na Angop há  cinco anos, quando, em 1987, surgem duas bolsas de estudos para esse órgão, oferecidas pelo Departamento de Informação e Propaganda do MPLA. Por altura da distribuição, fui um dos contemplados para, sem qualquer tipo de concorrência, ir para a Hungria fazer o curso de Direito Internacional. Mas, para a minha infelicidade, havia dois indivíduos na Angop que tinham interesse em pôr uma outra pessoa no meu lugar, que sequer trabalhava na Agência, sem pôr de parte as implicações políticas. Havia uma senhora, já falecida, que foi minha vizinha que era, seguramente, uma militante da UNITA, naquele tempo, com grandes poderes no Instituto de Bolsas de Estudos (INAB). Ela é que mandava no INAB e, se calhar, assustou-se quando viu o meu nome, um vizinho do bairro onde ela morava, a aparecer como candidato a uma bolsa de estudo na Hungria.

Onde é que entram as duas figuras da Angop que fez referência?

Havia um projecto da UNITA no sentido de infiltrar o maior número possível de quadros nas bolsas de estudos, onde uma vizinha minha era a principal figura que facilitava esse processo. No meu lugar, foi um tal de Julião Catumbela. Curiosamente, depois disso o meu nome voltou a sair na Faculdade de Direito. Eu não sabia da ocorrência, fui alertado pelo Silva Candembo.

Esses momentos foram muito difíceis para ti?

Muito. Cheguei a pensar em suicídio.

Reiniciou as aulas?

Reiniciei, em 1988, muito desmotivado e, para falar a verdade, os azares aí também não faltaram.

Que tipo de azares?

Eu tinha deixado, em atraso, a cadeira semestral de Introdução ao Estudo de Direito. Depois da queda do Muro de Berlim, por esvaziamento dos conteúdos marxistas, houve uma mudança nos currículos do curso e esta cadeira passou para anual, tornando-se uma disciplina nuclear. Fui obrigado a voltar para o primeiro ano nessa disciplina. Enquanto não fizesse essa cadeira não poderia transitar. E como um mal nunca vem só, o Dr. Evaristo, não me lembro se Macedo, mas que tenho a certeza que é irmão do Carrasquinha, andou a me chumbar nessa disciplina durante quatro anos.

O professor tinha alguma razão para te reprovar?

Não sei, mas vim a saber depois que ele tinha sido uma das vítimas do 27 de Maio e, como consequência, ficou com uma propensão para molestar tudo que lhe cheirava a Governo. Eu era jornalista do Jornal de Angola. Outra pessoa que passou pela mesma situação foi o Arlindo Macedo.

Está difícil compreender como é que uma pessoa “superdotada” não consegue concluir a faculdade?

Não sei se havia algum interesse do antigo regime em impedir o meu avanço académico. Mas verdade se diga, fui perseguido ao ponto de o meu processo individual desaparecer na Faculdade de Direito, durante oito anos. Em 2008, quando parecia que tudo iria terminar, lá consegui entrar para o terceiro ano, cansado com tudo e todos. Em 20 anos de faculdade, não consegui avançar mais do que o terceiro ano. Quando regressei para tentar concluir os meus estudos, fui forçado a fugir da escola por razões políticas.

Já pensou no próximo livro?

Com as crónicas que escrevo posso editar vários livros, é só recolher.

Conta com algum patrocínio?

Tenho promessas da “Edições Novembro” de publicar o meu livro e de mais dois escritores, nomeadamente, o Adriano Mixinge e o Luís Kandjimbo, que serão os primeiros.

“A controvérsia, além de animar, traz evolução”

Tens muitos amigos?

Agora não. Quando fui director do “Semanário Angolense”, cheguei a pensar que tinha muitos amigos. Com a infelicidade que tenho, são poucos os que dão a cara, mesmo sabendo que eu preciso. Já não tenho a mesma capacidade para resolver os meus problemas sociais e económicos, vejo-me, muitas vezes, obrigado a recorrer a esmolas para sobreviver. É extremamente complicado viver com uma reforma de menos de 200 mil kwanzas. Além da família e a casa que tenho para cuidar, preciso de comprar os medicamentos, que não ficam nada baratos.

Para quem lhe segue nas Redes Sociais pode facilmente perceber que o Salas está sempre envolvido em polémicas. É uma pessoa polémica?

Adoro polémicas!

Muitos consideram essa tua propensão para as polémicas um ego, até certo ponto, exacerbado. É verdade?

Gosto de controvérsia. Às vezes penso que há paz a mais no Facebook. Depois, não tenho mais nada a fazer, apesar dessa minha propensão para essas coisas vir de há muito. Acho que a controvérsia, além de animar, traz evolução. É preciso haver luta de contrastes para haver desenvolvimento. Recentemente disse que não me lembrava que algum presidente angolano tivesse sido recebido na Casa Branca, mas lembrava-me do Savimbi. Aquilo deu uma confusão no Facebook, que alguém me advertiu que não devia promover um terrorista nessas plataformas. Enfim, uma linguagem muita atrasada de um radical do MPLA.

E o teu ego?

As minhas polémicas não têm nada a ver com o ego. Gosto de coisas que trazem alguma evolução. A minha liberdade intelectual me permite abordar temas polémicos. Às vezes até, por mero azar, basta ouvir o nome do Salas para surgir a polémica. Isso é assim em tudo que eu entro. Se estiver a jogar futebol ou a fazer outra coisa qualquer, basta uma falha para virem todos contra o Salas. É uma coisa que acontece com muita regularidade, mesmo nos debates públicos em que marco presença.

Pode citar alguns exemplos?

O “Chá da Manhã”, do engenheiro António Venâncio. Basta me preparar para falar, aparece logo alguém para me cortar. Uma vez estive num debate na Rádio Nacional, com o Teixeira Cândido e o Honorato Silva, não me deixavam falar

A passagem pelo “Semanário Angolense”

 e as desavenças com Graça Campos

Como é que foi parar ao jornal Angolense?

Sou jornalista, mas fora do activo, desde Maio de 2016, portanto, seis anos depois de assumir o cargo de director do “Semanário Angolense”. Fui o terceiro e último director desse jornal que, acho, era um dos mais influentes do País. Tenho passagem pelo Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, Angop, Folha8, TPA e pelo Arquivo Histórico Nacional. Quando vou para o Angolense, estava à espera de um emprego na Executive Center. Tinha largado o Folha8 e havia promessas neste sentido, mas depois disseram-me que podia escrever para outros títulos, enquanto aguardava. Depois de escrever um texto assinado para o Angolense, a Executive Center recusou a minha candidatura e aceitaram apenas o Fernando Martins.

Só por isso viu vetado o seu acesso na Executive Center?

O acesso era difícil para os pretos. Se calhar até agora. Na revista da TAAG, tu contavas nos dedos das mãos o número de pretos que tinha lá. Se calhar tive a sorte de ter lá o falecido Paulo Pinha, para ser admitido como colaborador.

As admissões não eram por mérito próprio?

Então, os pretos eram todos medíocres!? Havia pessoas que não assinavam, mas tinham lá os nomes, desde que fosse mas “clarinho”. Se bem me lembro, os únicos pretos que estavam lá era eu, o Jomo e o mais velho Raul David.

A sua rejeição na Executivo Center ditou a sua ida para o Angolense?

Depois desses altos e baixos, acabei mesmo por ficar no Angolense. Estive lá desde o início como editor de Sociedade, mas fazia muito mais do que isso. Estavam a dar os primeiros passos, a situação era mesmo difícil. Aos fins-de-semana davam-nos alguns valores. Há dias, o Graça Campos teve a deselegância de dizer que no Angolense, eu não era imprescindível.

E como é que reagiu às declarações do Graça Campos?

Isso é uma pura mentira. E tem muitos exemplos para comprovar.

É recorrente a troca de mimos entre o Salas Neto e Graça Campos?

Não, isso não é verdade. O problema é que o Graça gosta de pensar que é a sumidade do jornalismo angolano, mas, há dias, tive que lhe dizer que ele não passa de um cabulador. Por trás disso vêm outras questões encobertas. Pensou que só ele é que podia fazer o jornal. Daí essa rivalidade. Ele pensava que sem ele, o Jornal Angolense iria morrer, mas não morreu. Aguentei o jornal durante sete anos.

Como é que chegaste a director do Angolense?

Quando eles são forçados a vender o jornal, o Graça sai imediatamente. O Silva Candembo passou a director e o Severino Carlos a adjunto. Eu passei a editor-chefe. O título passou para o controlo de um outro proprietário, a Média Investe, mas nós sabíamos a quem, de facto, o título estava ligado. Por desacordo com o novo patrão, o Severino também acabou por sair.

Há quem chegou a considerar a tua ascensão uma traição?

Nada disso. Quando o Severino apresentou as exigências como condição para continuar à frente do Jornal e, diante da recusa dos novos proprietários, falámos com as pessoas que tinham recebido o dinheiro com a venda do Jornal que, comenta-se agora, esteve à volta dos quatro milhões de dólares, para saber se havia um fundo de apoio para um eventual movimento grevista, mas eles recusaram-se em apoiar. Eu tinha uma família para sustentar e não tinha como me desempregar. Apesar dos condicionalismos, acabei por aceitar o cargo de director, com a diferença de que o Graça tinha o céu como limite e eu os meus patrões. Fui taxado de traidor, mas não tinha como.

É um jornalista com uma folha de serviço recheada, mas  sentes-te discriminado no jornalismo angolano?

Sim. Basta ver que nunca ganhei um prémio. Qualquer jornalista honesto deve questionar-se porquê que o Salas Neto nunca ganhou um prémio. A partir da altura que perdi o olho e passei a usar prótese estive sempre sujeito à discriminação.

E os teus valores, a tua competência?

Mesmo no Jornal de Angola era sempre subalternizado. Era sempre adjunto deste ou daquele. Nunca era o editor, era sempre o sub.  Idem na Angop.  As pessoas que estiveram sempre à minha frente, na Angop, eram sempre mais “cabuenhas” do que eu, a olhos vistos.

Actualmente, como avalia o estado do jornalismo angolano?

Acompanho a Rádio Nacional, a Rádio Ecclésia e a EuroNews, a nível externo. Mas a julgar pelas grandes “makas” que aconteceram recentemente, com TPA a não dar a devida cobertura, não sei porque razão, a chegada do antigo Presidente, foi um forte sinal de que não estamos lá muito bem. A avaliação que faço é que está muito abaixo do razoável. Quando o Presidente João Lourenço chegou ao poder, tivemos grandes melhorias em termos de liberdades, mas parece haver um grande retrocesso a nível das liberdades. Os órgãos públicos estão com uma linha editorial horrível, em termos de imparcialidade. Têm um tratamento muito discriminatório para com os partidos da oposição e parece mesmo que voltámos ao velho paradigma. A grande diferença é que, ao contrário do que acontecia, já se mostra um pouco mais da realidade do País, ao invés daquele país cor-de-rosa que tínhamos no “tempo da outra senhora”. Em termos políticos, estamos muitos furos a baixo, muito atrasados.

Qual é a sua opinião sobre a polémica que envolveu a UNITA, a TPA e a TV Zimbo?

Uma das piores coisas que um partido da oposição pode fazer é comprar briga com os jornalistas, sejam dos órgãos públicos ou privados.

Já pensou no próximo livro?

Com as crónicas que escrevo posso editar vários livros, é só recolher.

Conta com algum patrocínio?

Tenho promessas da Edições Novembro de publicar o meu livro e de mais dois escritores, nomeadamente, o Adriano Mixinge e o Luís Kandjimbo, que serão os primeiros.

O que é que gostarias de fazer neste momento?

Gostaria de trabalhar, ter um emprego que me ajudasse a não viver permanentemente de mão estendida.

É teu sonho conseguir um emprego?

Sim, ainda não estou acabado. Ainda consigo trabalhar numa redacção.

Perda da visão, um drama da vida real

Pode fazer uma referência aos momentos mais difíceis que marcaram a tua vida?

Pela negativa, foi quando perdi o olho direito, a morte de dois irmãos e a perda da bolsa de estudos.

Quando e como começou a perder a visão?

Perdi a vista direita em Março de 1971, aos 11 anos, numa briga com dois rapazes brancos. Fui reformado precocemente, na sequência de um glaucoma, que cegou a última vista que tinha.

Como te sentiste quando deste conta que a tua visão não tinha hipóteses de cura?

O primeiro sentimento foi de desespero. Foi-me diagnosticado glaucoma, em 2012, no Brasil. Não tinha hipóteses, mas podia retardar um pouco a cegueira. Fiz um tratamento num consultório no Brasil e mandaram-me regressar dois anos depois. Acontece que, quando regressei, o consultório já não existia. Tudo poderia ter sido melhor se tivessem detectado a glaucoma em tempo útil. Eu estava a cegar e os médicos iam ajustando a graduação como medida de cura, quando na verdade deveriam ir ao fundo da questão para investigar o que eu realmente tinha. Se calhar teriam reduzido os efeitos. Por exemplo, se tivesse um tempo determinado de 10 anos para chegar a cegueira, eles poderiam ter retardado 20 anos.

Existia essa possibilidade?

Depois de ser diagnosticado, ainda aguentei 3 anos, fui ao melhor instituto da vista em Espanha, onde fui operado, mas já não havia nada a fazer, era apenas para estancar. Já era muito tarde.

Depois da cegueira, de onde vieram os primeiros apoios. Se bem me lembro, a esta altura falava muito em suicídio?

É um facto, mas percebi depois que era possível a vida depois da cegueira. Mas, na verdade, foi o que eu considero o “espírito de missão”, que prevaleceu. Tenho uma filha e um neto que dependem, em grande medida, de mim. Considero que seria um grande pecado suicidar-me e deixá-los desamparados. Por isso, mesmo sem gostar, senti-me na obrigação de continuar a viver e me sacrificar, por causa deles.

Da cegueira ao domínio do computador, como é que foi esta transição?

Por mero acaso, conheci um menino que considero o meu ídolo. O Lourenço Diogo, é funcionário da Sonangol. Ficou cego aos 14 anos. Ele faz coisas que me deixam admirado. Ele é que vai instalar o programa que preciso no meu computador.

Como o conheceu?

Por acaso. Acho que foi através de um programa da Rádio Nacional sobre glaucoma. Ele perguntou-me o que gostaria de aprender e disse-lhe que gostaria de aprender o braillie, para poder concluir o meu curso em Coimbra. O jovem, como domina a técnica, vinha a minha casa com o técnico e deu-me um curso intensivo de duas semanas. Chamam Braille, é um programa específico com base na audição. Tens que ouvir bem para não cometer erros. É um computador com teclado normal, com uns segredos nas teclas, que permite a qualquer um, na minha condição, escrever e corrigir textos. Há pessoas que não acreditam, mas isso vai me permitindo fazer às vezes alguns biscates.

O que é que queria que lhe acontecesse na vida?

Recuperar a visão.

Achas isso possível?

A Ciência evoluiu muito neste capítulo e acho que daqui a mais uns anitos vamos ter o olho biônico que vai facilitar o implante para pessoas em situação idêntica à minha.

Estarás em condições de te candidatares para esse implante?

O preço, com certeza, não está ao bolso de qualquer um. Fala-se em 150 mil dólares para um implante. Mas quando chegar a hora, espero contar com o apoio de toda a sociedade angolana, até do mais alto Mandatário da Nação.

“Sou do MPLA, fui do tempo das ratificações”

É do MPLA?

Sou do MPLA, então não sabes? Sou do tempo das ratificações. Neste momento, não tenho cartão de militante, porque o meu Cap desapareceu. Não posso esconder isso, nunca deixei de ser.

O Cap desapareceu?

Sim, não sei muito bem as razões, mas acho que já não se faz política sem dinheiro. Tem havido umas tentativas de reactivação, mas não sei concretamente as quantas andam as coisas. Recebi uma proposta para secretário para a comissão de moradores, mas não sei no que isso vai dar precisamente.

Admites a hipótese de se enquadrar no Cap da tua zona em caso de reabertura?

Sim, mas acho que é preciso mudar muita coisa. Continuamos a utilizar práticas que fazem parte do passado. É preciso mudar isso. Perdemos muito tempo com coisas fúteis.

E foi ratificado?

Claro que sim, apesar de alguém tentar chumbar a minha ratificação, consegui passar. A pessoa indicada para me ratificar foi um dos meus antigos colegas, a quem dei muitas palmatórias na escola. A professora era minha “panca” e quando tinha que castigar alguém era a mim que ela indicava para executar a “sentença”. Tentou inviabilizar a minha ratificação, mas não conseguiu.

E qual foi o argumento que utilizou?

Disse que o camarada Salas não podia ser ratificado, porque bebia muito.

Por diversas vezes, manifestou interesse em concorrer às autarquias. Se as eleições fossem hoje estaria em condições de apresentar a candidatura?

As eleições nunca mais aparecem e, à medida que o tempo vai passando, a idade também avança e com menos disponibilidades para fazê-lo. Na minha condição actual é mais difícil agora, mas não ponho de parte esta hipótese.

Acha que tem hipótese de vencer?

Porquê que não? Lá vem vocês com a vossa discriminação. Quem vai ao jogo tem que estar confiante em alguma coisa. Só parto em desvantagem se houver algum preconceito. Já ouvi alguém dizer que não seria de bom tom uma eventual participação minha nas autarquias porque, mesmo em caso de vitória, isso iria resultar em mais gastos, em relação a um autarca “normal”. E vai mais longe desaconselhando-me a concorrer porque tinha que encarar eleitores olho no olho. Em resposta, perguntei-lhe se para um vereador tratar de um assunto de saneamento básico com a comunidade era necessário ir ao WC ver o que ele faz.

Há exemplos de pessoas com deficiência visual que já exerceram cargos políticos?

Há pessoas cegas em outros países que chegam a ministros e, nesse caso concreto, gosto de citar o caso de David Blunkett, que foi ministro nos três governos de Tony Blair. Se for aqui, vão me chamar feiticeiro. David Blunkett foi, em 1969, o mais jovem autarca do Reino Unido. Entre 1997 e 2001, foi ministro do Interior. Entre 2001 e 2004, ministro do Trabalho e Pensões. É cego desde a nascença, o que não o impediu de fazer carreira política. 

Subsídio de reforma e apoios de amigos

Profissionalmente, qual era o teu sonho?

O meu sonho era ser piloto ou agente secreto. O sonho de piloto morreu logo depois de perder a primeira vista e a de agente secreto também não passou de sonho. Feliz ou infelizmente, acabei por não ser nem bófia nem bufo. Acabei no Jornalismo.

Recebe muitos apoios?

Tenho recebido o apoio de algumas pessoas, dependendo do bom humor de cada um. Às vezes ligo para alguns para pedir, mas, no fundo, a vida no nosso País foi sempre assim. Fomos formatados para sermos pedintes e, na minha condição de cego, piora um pouco. Às vezes, passo humilhações. Existem pessoas que já não me atendem o telefone, porque, quando o telefone chama, pensam logo que um gajo já quer pedir dinheiro, quando na realidade é só para saber se o “Primeiro de Agosto” ganhou.

É possível citar alguns nomes dos que te abrem as portas?

Tenho ajuda pontual do meu irmão cassule, o Eduardo e alguns amigos do bairro, como o Mimoso, Pírula e o Maninho Tripa, o Sabino, o Zé Dias, o Costinha.

Vives de quê?

Vivo da pensão de reforma e do subsídio que a Edições Novembro me dá como colunista do Jornal Metropolitano de Luanda.

Trabalhar para não viver

de mão estendida

Recebeste um computador de presente da ministra de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira?

É uma cidadã que respondeu a um requerimento público, o qual agradeço muito. Na verdade, com os meus rendimentos, eu nunca conseguiria comprar o computador.

Fez, como disse, um pedido público, mas recusa de forma veemente a “vaquinha”?

De uma vez por todas, é preciso fazer aqui o seguinte reparo. Quando fizer um pedido público não é para “vaquinhas”. Não sei se estou a me fazer entender. É para alguém que tenha dinheiro e, de sua livre e espontânea vontade, se apreste em ajudar. É público, mas não é para “vaquinhas”. Eu quase que me passo quando me falam em “vaquinhas”.

O que é que tem a “vaquinha”?

É pessoal.

Como te sentiste ao receber o presente?

Bom, fazer um pedido desses não deixa de ser um pouco humilhante, mas não tinha outra hipótese. Foi muito bom, para mim, aparecer a senhora ministra ou melhor a cidadã Carolina Cerqueira para me presentear com o computador.

Gosta de dançar?

Tu sabes, me conheces muito bem. Danço muito. Mesmo com essas limitações ainda escangalho, com aquela cena que as mulheres gostam.

Que cena é que as mulheres gostam?

A minha ginga, o meu estilo assim um pouco especial, que elas gostam. Sou muito convidado para dançar.

PONTO DE ENCONTRO DOS “BALOEIROS”

A Pedra do Feitiço?

Também foste desse tempo, essas experiências da vida. À semelhança dos jovens que têm, hoje, a sua Mutamba (locais de encontro), nós também tínhamos a nossa. Éramos um grupo de jovens a quem chamavam os “Baloeiros” que muita gente pensava que eram bandidos e fumavam  liamba.

E não era assim?

A maior parte estudava, salvo algumas excepções de casos irremediavelmente perdidos.

O que era a Pedra?

A pedra era uma cabine de transformação de energia, com uns degraus e uma placa que fazia o sítio ideal para sentarmo-nos. Fica situada na esquina da C-5, a escassos metros do antigo acampamento dos cubanos. Era aí o nosso sítio. Quem quisesse fumar liamba fumava à vontade, era consentido e não havia proibições. Depois, apareceram alguns bandidos famosos que acabaram por estragar tudo.

O que é que se fazia concretamente na Mutamba?

Conversávamos, mas também jogávamos futebol e dávamos grandes farras, que era o forte dos “Baloeiros”. Tínhamos grandes dançarinos no grupo e “patávamos” em muitas festas. Entrávamos como “patos” e acabávamos por nos transformar nos grandes senhores da festa. Todas as damas queriam dançar connosco. Colonizávamos a festa toda por via da dança. Isso chegou a provocar lutas por causa de ciúmes. Os donos das festas chegavam a perder as namoradas que, depois da primeira dança, já não aceitavam outro senão os integrantes do grupo. Danças que muitas vezes terminavam em namoro.

A forma despreocupada como falas das paixões antigas não incomoda a tua esposa?

A única vez que a vi com ciúmes a sério foi numa festa de um primo dela. Éramos ainda namorados. Tinha chegado de Portugal, bem bangão, e apareceram umas meninas assanhadas. E a última foi há bem pouco tempo. Mas de uma forma geral ela não faz grandes cenas de ciúmes.

Parece ter uma predilecção especial pela praça dos “traiçoeiros”. O que é que este espaço representa para si?

Se calhar agora até pode ser uma coisa fictícia. É um sítio onde nós sentamos, em frente a uma casa onde vendem cerveja. Transformámos o espaço na nossa Mutamba e demo-lo um nome.

Qual é a origem do nome?

Muitos pensam que fui eu quem atribuiu o nome, mas na verdade foi o DJ Projecta. Ele estava com problemas com a mulher e sempre que nos encontrasse pensava que estávamos a falar dele e lançava uns impropérios contra nós, onde não escapava o “sóis traiçoeiros”. E o nome ficou! Eu apenas tratei de o institucionalizar. A “ Placa dos Traiçoeiros” já teve o mérito de receber algumas figuras importantes da nossa sociedade, como o bispo de Cabinda, dom Belmiro Tchissengueti.

E quem são os traiçoeiros?

Eu não sou traiçoeiro!

Só quis saber quem são realmente os traiçoeiros?

Tem o comandante Chico Groy, o ti Perdido, a Filó Brito, que é a vice-presidente. Fui indicado a presidente, com direito a cerimónia de posse e tudo. O primeiro é o chefe dos Serviços de Segurança e o segundo, o meu secretário particular.

Fonte: J.Kwanza

O Apostolado Nas Redes Sociais

Twitter O ApostoladoFacebook Jornal O Apostolado

Apostolado Divisoria


Apostolado Divisoria


Apostolado Divisoria


Apostolado Divisoria