João Lourenço, Präsident von Angola, im Gespräch mit DW

O facto dele (José Eduardo dos Santos) ter voltado é bom para toda a gente, não apenas para a nossa relação melhor para o País bom para o partido disse o “Presidente a entrevista ao jornal Britânico Finantial Times, que assinala o ton conciliatório face ao seu predecessor notando ao mesmo tempo em que a luta contra a corrupção de João Lourenço elegeu como bandeira “causou estragos no MPLA”.

“Mais há sinais de abrandamento, na medida em que se aproximam as eleições do proximo ano e a necesssidade da união do partido será essencial” lé-se no FT.

Finantial Times destaca, no seu artigo, que João Lourenço, com o cngresso para escolher a nova liderança para o partido marcado para Dezembro, enfrenta desencanto da classe média urbana, que segundo alguns analistas tende afastar-se do MPLA, e uma opsição robusta que congregou Três Partidos numa Frente Patriotica Unida que tem procurado capilizar elevados níveis de insatisfação dos angolanos com o governo.

José Eduardo dos Santos, cuja filha mais velha, Isabel dos Santos, tem sido um dos principais alvos da justiça angolana, regressou a angola em setembro, após ter estado 30 Meses retirados em Espanha, mais sobre os motivos que o levaram a voltar nada foi divulgado oficialmente. Da presidencia Angolana, também nada se ouviu sobre o assunto.

Na enttrevista ao  Finantial Times, rejeita estar a conduzir uma vingança contra Isabel dos Santos e afirma que o processo está ser conduzido pelos tribunais e não por si.

“Ao nível partidario houve o reconhecimento que existia uma corrupção galopante. Dizia isto há anos. A diferença é que antes era só conversa e nada acção. E hoje está a ser a todos a todos os níveis: Contra os grande e os pequenos”;  Declarou João Lourenço ao FT, sobre a luta contra a corrupção, que tem sido a bandeira da sua governação.

Sobre a saída da empresaria de Angola João Lourenço atirou um velho ditado: “Quem não deve não teme”.

De referir que no dia em que o ex-presidente, que liderou que liderou Angola durante 38 anos, voltou a 14 de Setembro, João Lourenço estabva de visita à provincia do Kwanza Norte, e José Eduardo dos Santos, foi recebido no aeroporto pelo protocolo de Estado, mas sem presença de nenhum membro do governo ou diregente do MPLA, partido do qual é presidente emérito.

Só dois dis depois a presidencia fez saber, através da sua página do Facebook, que os dois “se saudaram mutuamente” numa conversa telefonica.

O texto do Finantial Temes, destaca que à fase a recessão economica – já no seu quinto ano- o MPLA parece mais vulnerável do que em qualauer em qualquer altura do seu dominio de quase 50 anos em Angola, apesar de João Lourenço se mostrar confiante  na vitória.

Quanto “a possiblilidade de termos um mau resultado nas proximas eleições, penso que é muito remota”, disse aos Jornalistas acrescentando que quem conheceu o país compreende a capacidade de resistência do MPLA.

Fonte: N.Jornal    

A despesa do novo Hospital Militar de Luanda, considerado pelo presidente da república, no seu discurso sobre o estado da Nação, uma das grandes realizações ao nível do sector da Defesa e Veteranos da Pátria, foi aprovada no mesmo dia em que o João Lourenço se dirigiu ao parlamento e ao País, quando inaugurou o amo Legislativo.

Hospital Militar Principal de Luanda: transformado em trincheira da negligência hospitalar

No diário da República, o chefe de Estado formaliza abertura do procedimento de contratação simplificada pelo critério material (ajuste direito) para adjudicação do contrato  de empreitada de concepção, construção, formação do pessoal e apetrechamento do novo Hospital Militar de Luanda, no valor global de 90 milhões de dólares norte-americanos.

No despacho presidencial 169/21, João Lourenço aprova ainda uma despesa de 6,3 milhões de USD para contrato de fiscalização da empreitada.

No documento, que avança a construtira que vai ser entregue a obra, e delegada a competência ao Minstério da Defesa e Veteranos da Pátria, com a faculdade Subdelegar, para a prática de todos os actos decisórios e de aprovação tutelar no âmbito do procedimento, icluíndo a adjudicação, celebração e homologação dos corrspondentes contratos.

Esta nova infraestrutura, que, de acordo com os dados avançadfos pelo presidente no seu discurso sobre o Estado da Nação, vai ter 200 camas, junta-se ao Hospital Militar proncipal de Luanda/Instituto Superior para o qual foi aberta uma linha de crédito jubto ao Banco de Fomento Angola no montante de 63,2 milhões de Kwanzas (98,1 milhões de Dólares norte-americanos), e cuja requalificação “ já está en curso, com 320 camas”.

Segundo o presidente “esta capacidade Hospitalar a instalar vai certamente contribuir para melhoria assitência médica e medicamentosa dos efeitivos dos órgãos da defesa e segurança no nosso país”.

De referir que num despacho presidencial anterior, datado de Julho deste ano, João Lourenço autorizou ajuste directo que entregou a empreitada, no valor de 119,9 milhões de dólares norte-americanos à Omatapalo.

O valor contrato era destinado a “assegurar os recursos financeiros necessários à execusão do contrato de empreitatada, requalificação e apetrechamento do Hospital Militar Principal de Luanda, a obra entre à Omatapalo em Agosto de 2019, através de um procedimento de contratação simplificada, justificada “pela necessidade de se qualificar e apetrechar com urgência do Hospital Militar principal de Luanda/Instituto Superior, atendendo ao seu nível de degradação física e desactualização tecnólogica para garantir um atendimento eficiênte aos seus beneficiários”.

No despacho de Agosto de 2019 lia-se ainda que o “Hospital Militar Principal de Luanda/Instituto Superior representa uma das principais unidades hospitalares e academicas de referência, cuja degradação física actual pode implicar a diminuição da sua prestação de serviço que se afere de grande importância para as Forças Armadas, de defesa e segurança e outros uténtes”.

Fonte: N.Jornal

Tristeza para muita gente que tinha uma residência a ser construída no município de Viana, Distrito Urbano do Zango, onde o camartelo da administração destruiu 32 casas.

Casas demolidas

 Segundo as pessoas lesadas, adquiriram o terreno a uma empresa de construção que anda em parte incerta, e que tinha a testa um suposto empresário de nome “Dino”. 

“Eles disseram que o espaço era  seguro, garantiram que não havia problema, estava a fazer a casa do futuro, recebi crédito bancário para concluir a casa que hoje vejo ser derrubada pela Administração, por que é que deixaram-nos levantar as paredes quando sabiam que o terreno estava em litigio”, questionou Judite Maria Helena.

António João, de 54 anos de idade, com o semblante triste, disse a nossa equipa de reportagem que tinha conhecimento que o espaço era de um tal empresário de nome “Dino”, mas que nunca deu a cara.

“Comprei uma casa da mão de uma construtora, onde havia indivíduos da fiscalização que intermediavam as compras, agora, se eles nos enganaram, devia haver um sentimento de amor ao próximo por parte do Estado”.

Terreno pertence a empresa Santa Úrsula

De acordo com o proprietário do espaço, Bernardinho de Carvalho, vem desde 2017 advertindo para que não construíssem no seu espaço.

“Sou ente sócio da empresa Santa Úrsula, que é detentora do terreno em questão. Em 2010, pensamos em construir um Instituto Superior, recorremos ao PPHS, adquirimos o espaço, pagamos os emolumentos em cerca de doze mil dólares americanos, numa extensão de 1600mX350m2”, explicou.

Segundo o proprietário,  em 2014, surgiu uma imposição no Ministério da Construção dizendo que tínhamos que indemnizar os camponeses que tratavam antes do espaço.  “Aceitamos, o PPHS e os camponeses, sob orientação do GPL, criaram uma comissão que conduziram as indemnizações, onde cada camponês entregou cópia do Bilhete de Identidade e o número de telefone. Tenho aqui tudo arquivado, são 72 pessoas que foram indemnizadas, em cerca de 80 mil dólares”, justificou.

 “Na vigência de Jeremias Dumbo, ficou provado que todos os camponeses foram indemnizados, tenho aqui, pode ser comprovada”, apresentou os documentos, observando que é a segunda vez que são feitas demolições naquele espaço.

 “Há seis meses houve demolições de 15 casas, agora cresceu para 32, do ponto de vista humano pesa-me sim, tivemos que deixar cinco casas porque já estavam habitadas”.

As demolições foram legais, defende o responsável da fiscalização de Viana

 De acordo com António Manuel de Castro (Grego), Director da Fiscalização de Viana, as demoções assistidas na sexta-feira, 15, foram legais, e fazem parte do processo 08-2021, exarado pelo Administrador municipal.

“No entanto, não só por este documento da administração, a lei 12 prevê estas demolições de ocupações de terras sem autorização”, explicou.

“Os ocupantes estão desde 2018, antes das demolições fizemos um embargo que está lá estampado com data de 28 de Julho do ano em curso, no entanto, sempre que nos deslocássemos para lá, nunca havia pessoas,  então limitávamo-nos a recolher o material”, avançou o responsável, acrescentando que, os invasores constroem aos fins-de-semana,  feriados e de noites.

“Mesmo assim deixávamos as notificações, mas não compareciam, então tivemos que demolir as 37 casas em construções, e deixamos cinco que já estavam habitadas”. Segundo o responsável, o espaço em referência está licenciado pela empresa Santa Úrsula, e não foi apresentado  nenhum outro documento.

Fonte: Na Mira do Crime

Quadros e membros de direcção da União para Independência Total de Angola (UNITA) escondem a sete chaves a questão sobre a multiplicidade de candidaturas à presidência do maior partido na oposição em Angola, depois de o Tribunal Constitucional (TC) ter anulado o XIIIº Congresso Ordinário dos maninhos, que elegeu Adalberto Costa Júnior como líder do Galo Negro.

Dentro de dias, a UNITA irá a congresso para eleger o novo presidente, por imposição do Constitucional. Nesta altura, a direcção e até militantes seniores estão remetidos ao silêncio sobre possíveis oponentes de Adalberto Costa Júnior na liderança do partido.

Numa conversa por telefone com o NA MIRA DO Crime, Alcides Sakala revelou que “esse momento é estratégico e nada pode ser dito, esperando o que será definido pela comissão política”, que se reúne hoje, quarta-feira, 20.

 Sakala que foi o segundo candidato mais votado novo XIIIº Congresso (anulado) dos maninhos que elegeu Adalberto Costa Júnior, também não respondeu se estaria disponível a uma segunda candidatura.

“Tudo ainda está indefinido. Tudo isso irão saber dentro de dias em comunicado que se vai apresentar a comunidade nacional e internacional face os novos desafios”, referiu.

Quem também se esquivou a responder a pergunta do NA MIRA, foi José Pedro Katchiungo, que alegou não ser a pessoa indicada para falar sobre o assunto.

Outro dirigente do galo negro questionado se haverá ou não outras candidaturas para a presidência do partido, foi o líder juvenil do partido, Agostinho Kamwango que limitou-se a dizer que o evento será baseado nos estatutos do partido.

Lembra-se que no XIIIº Congresso da UNITA, realizado em Novembro de 2019, em Luanda, Adalberto Costa Júnior conquistou 50% mais um dos votos, conforme previsto nos estatutos da União Nacional para a Independência Total de Angola, tendo derrotado na concorrência Alcides Sakala Simões, Abílio Kamalata “Numa”, Raúl Danda (de feliz memória) e José Pedro Katchiungo.

Fonte: J. Na Mira do Crime

No domingo, Adalberto Costa Júnior, que desde há uns meses raramente aceita prestar declarações a jornais nacionais, preferindo conceder entrevistas à imprensa internacional, criticou duramente a justiça angolana, nomeadamente a postura da PGR, afirmando, em declarações ao diário português, estar surpreendido “com o silêncio ou a conivência da PGR nesta matéria”.

PRG

“Há um dirigente da UNITA a quem foram pagos 22 milhões de kwanzas para denunciar o seu presidente, fez uma conferência de imprensa, mas a PGR ignorou-a. Houve outra conferência de imprensa de médicos que vieram a público dizer que foram procurados, sujeitos a elementos de chantagem para denunciar eventuais violações de menores e a mesma procuradoria que agora age, não se mexeu para investigar”, declarou, acusando o general Fernando Miala, chefe dos serviços de inteligência, de estar por detrás deste enredo.

“É óbvio que isto tem a mão do senhor Miala, o chefe dos serviços de inteligência. Que, como todos sabem, não está no âmbito de actuação democrática, a tratar dos interesses do Estado, está no âmbito de actuação partidária, a tratar dos interesses do partido no poder”, explicou ao Público, que escreveu, numa notícia titulada “PGR vai investigar líder destituído da UNITA por tentativa de homicídio”, que “a queixa-crime contra Adalberto Costa Júnior seria mais uma etapa nesse longo processo para o afastar da corrida à presidência do país e que contaria, talvez, com uma reacção mais dura por parte da UNITA em relação ao acórdão, quer com protestos nas ruas quer com recurso ao Tribunal Supremo, que a última revisão constitucional transformou numa instância superior ao Tribunal Constitucional”.

Fonte: N.Jornal

Salas Neto pode ser considerado uma figura emblemática de Luanda. Quem é afinal esta ilustre personalidade?

Gonçalves Manuel Afonso Neto nasceu, precocemente, no dia 4 de Janeiro de 1960, no bairro Santo Rosa, no Sambizanga.

DOUTOROLOUCURA AGUDA- SALAS NETO

Nasceu no Sambizanga, mas desde muito cedo foi viver no então Bairro Social de São Paulo, hoje conhecido como bairro das B´s e C´s, mas também Bairro Indígena?

Sim, saí do Sambizanga aos três anos e cresci na C-6, local onde vivo até hoje. Fomos uns dos primeiros moradores a chegar.

Vive na mesma casa e rua onde mora a sua mãe?

Vivo na mesma rua, mas um pouco acima da casa da minha mãe. Consegui casa própria aos 55 anos. Desde 1963, vivi sempre nas C’s, com uma passagem fugaz pelo Cassequel do Buraco.

O que representa para ti o bairro das B´s e C´s ou, se preferir, o Bairro Indígena?

É a minha vida. Tenho 61 anos, dos quais 58 passados aqui. Nunca me imaginei a viver num outro bairro. Agora que fiquei cego, penso que foi uma grande sorte ter conseguido a minha casa aqui. Na minha condição, não sei como seria a minha vida naquela confusão dos zangos.

Quais são as cenas que mais lhe marcaram no bairro?

Morava na C-6, mas passava a maior parte do meu tempo na C-5. Os brancos metiam-se sempre comigo, chamando-me “turra”.

Porquê?

Acho que era por causa da minha rebeldia natural. Lembro-me de uma menina branca que se metia sempre comigo. Sempre que estivesse a passar, ela virava em minha direcção a mangueira como que a borrifar o chão para me molhar. Como gostava da brincadeira, transformei a coisa numa espécie de ritual. Sabia a hora que tinha que passar para ser molhado. Era uma espécie de paixão não declarada. Havia também os irmãos Cabixi, uns “brancos sujos” da Madeira, que viviam na C-5. Esses eram os nossos banqueiros. É contra eles que nós descarregávamos a nossa ira, com cocos e galhetas.

Que memórias tens do São Domingos?

Para quem viveu nas C’s, o São Domingos é sempre uma referência obrigatória. Jogávamos lá a “squirrola”, sete e meio e outros jogos. Os padres Agostinho e Apolinário, que operavam como uma espécie de donos do sítio, eram as grandes figuras daquele tempo. Havia outras não menos importantes, como o Adriano, que chegou à Selecção Nacional de Basquetebol, o Ângelo Silva, do 1ºde Agosto e antigo guarda-redes da Selecção Nacional de Futebol, já falecido. Havia, também, no São Domingos uma espécie de praça em miniatura, onde eram comercializadas algumas iguarias, como a “xandula” com peixe frito e molho de tomate. Era divino. Havia, igualmente, bolinhos, paracuca e quissângua.

Onde fez os estudos?

Fiz os estudos primários na “Escola da Micate”, próximo do Campo de São Paulo, actualmente Escola de Ensino Especial. Estudei no Emídio Navarro, na antiga escola Comercial Vicente Ferreira, hoje 1º de Maio, no Njinga Mbandi e no Instituto Normal de Educação (INE), antigo São José de Cluny. Depois experimentei a Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto.

Sei que entrou para o ensino oficial apenas quando tinha 9 anos. Onde é que andou?

Sim, fui para o ensino oficial aos 9 anos, depois de ter concluído a terceira classe numa explicação, que ficava ali onde é hoje o mercado das Pedrinhas, nas imediações do mercado dos Congolenses. O menino Neco, era assim que era conhecido o nosso explicador, era muito famoso naquela altura, um grande professor. Mas quando vou para a escola oficial, o meu aprendizado na explicação não foi tido nem achado, de tal forma que me puseram na iniciação. Depois, transitaram-me da iniciação para a primeira classe. Não sei se vais ter espaço para contar a história toda, mas vou tentar sintetizar o mais possível. Uma vez, a professora mandou-me escrever um texto e eu escrevi três, o que deixou os professores todos espantados. Como é que um estudante da iniciação consegue escrever com esta perfeição toda? interrogavam-se. Para tirar dúvidas, puseram-me a ler uns textozinhos que haviam por ali e, mais uma vez, causou espanto aos professores, devido à perfeição com que o fazia. Isso valeu-me a transição para a primeira classe. Reduziu um pouco o atraso, mas não era o que eu queria. A quarta classe ficava-me muito bem.

Disse em tempos que teria recusado entoar “A Portuguesa” (o hino da República Portuguesa)?

Esta é uma história que vem no meu primeiro livro. Quando viemos para o Bairro Indígena, já se vivia o ambiente revolucionário, por uma razão muito simples. O meu padrasto foi preso, em Maio de 1963, por envolvimento e criação de células clandestinas. Foi um dos julgamentos políticos mais importantes, depois do “Processo 50”. Algumas figuras que estiveram ligadas ao meu padrasto eram Hermínio Escórcio, João Filipe Martins, Cabelo Branco, Roberto de Almeida, Lopo de Nascimento, o Sr. Totocho que, acho, era o Cordeiro da Mata, Bernardo de Sousa, Rui Gonçalves e muitos outros. Foram julgados e condenados. Saíram da cadeia, creio, em 1968 e a primeira coisa que fizeram, logo após à soltura, foi ouvir o “Angola Combatente”. Instruído por eles, ficava na rua para controlar os movimentos dos “bufos”, que podiam surgir a qualquer altura. Acho que esse foi o meu primeiro baptismo na luta contra o colonialismo. É esse ambiente que, se calhar, me tornou o “reguila” que sou hoje.  Aos 11 anos, recusei cantar o hino português e disse: “já não canto mais o hino”.

E qual foi a reacção da professora?

Para dizer a verdade, a professora era minha “panca”, mas mesmo assim participou o caso ao director da escola que, por sua vez, mandou chamar a PIDE-DGS.

Chegou a ser detido?

Houve um alvoroçozinho. Foram me buscar à escola, mas por sorte não me prenderam e sequer investigaram o meu padrasto. Deram, isso sim, uma valente carga de porrada, na sexta esquadra.

Foi um aluno brilhante?

Modéstia à parte, acho que no tempo do colono fui dos poucos pretos que teve 19 na pauta. No Emídio Navarro, eu competia com o Hélder, o irmão do Quim David, que também era muito “barra”. Na sétima classe cheguei a ter um 20 à Física, com o professor Luis Xirila. Ele não acreditou e me forçou a uma segunda prova, vigiada a tempo inteiro por ele.

E qual foi o resultado?

Repeti a proeza. Eles acabaram por me dar o que chamavam 20 expresso.

Considera-se um superdotado?

Agora não, mas já fui. Enquanto vocês se matavam a estudar, eu não precisava nada disso. Assistia as aulas e tudo ficava na cabeça. Já cheguei a fazer duas provas, a minha e a de mais um colega, no mesmo dia, chegando, muitas vezes, o ajudado a ficar com nota maior do que a minha. No geral, eu era o “cara” na sala de aula. Os colegas lutavam para sentarem ao meu lado. Era magnânimo.

Concluiu a faculdade?

Cheguei até ao terceiro ano do curso de Direito.

Não concluiu porquê?

É uma longa história. Depois de a UNITA roubar a minha bolsa de estudo, as coisas complicaram-se.

A UNITA roubou a bolsa de estudo?

Queres que eu fale primeiro sobre o quê? Porquê que não acabei a faculdade ou como me roubaram a bolsa?

Como roubaram a bolsa de estudo?

Eu já estava na Angop há  cinco anos, quando, em 1987, surgem duas bolsas de estudos para esse órgão, oferecidas pelo Departamento de Informação e Propaganda do MPLA. Por altura da distribuição, fui um dos contemplados para, sem qualquer tipo de concorrência, ir para a Hungria fazer o curso de Direito Internacional. Mas, para a minha infelicidade, havia dois indivíduos na Angop que tinham interesse em pôr uma outra pessoa no meu lugar, que sequer trabalhava na Agência, sem pôr de parte as implicações políticas. Havia uma senhora, já falecida, que foi minha vizinha que era, seguramente, uma militante da UNITA, naquele tempo, com grandes poderes no Instituto de Bolsas de Estudos (INAB). Ela é que mandava no INAB e, se calhar, assustou-se quando viu o meu nome, um vizinho do bairro onde ela morava, a aparecer como candidato a uma bolsa de estudo na Hungria.

Onde é que entram as duas figuras da Angop que fez referência?

Havia um projecto da UNITA no sentido de infiltrar o maior número possível de quadros nas bolsas de estudos, onde uma vizinha minha era a principal figura que facilitava esse processo. No meu lugar, foi um tal de Julião Catumbela. Curiosamente, depois disso o meu nome voltou a sair na Faculdade de Direito. Eu não sabia da ocorrência, fui alertado pelo Silva Candembo.

Esses momentos foram muito difíceis para ti?

Muito. Cheguei a pensar em suicídio.

Reiniciou as aulas?

Reiniciei, em 1988, muito desmotivado e, para falar a verdade, os azares aí também não faltaram.

Que tipo de azares?

Eu tinha deixado, em atraso, a cadeira semestral de Introdução ao Estudo de Direito. Depois da queda do Muro de Berlim, por esvaziamento dos conteúdos marxistas, houve uma mudança nos currículos do curso e esta cadeira passou para anual, tornando-se uma disciplina nuclear. Fui obrigado a voltar para o primeiro ano nessa disciplina. Enquanto não fizesse essa cadeira não poderia transitar. E como um mal nunca vem só, o Dr. Evaristo, não me lembro se Macedo, mas que tenho a certeza que é irmão do Carrasquinha, andou a me chumbar nessa disciplina durante quatro anos.

O professor tinha alguma razão para te reprovar?

Não sei, mas vim a saber depois que ele tinha sido uma das vítimas do 27 de Maio e, como consequência, ficou com uma propensão para molestar tudo que lhe cheirava a Governo. Eu era jornalista do Jornal de Angola. Outra pessoa que passou pela mesma situação foi o Arlindo Macedo.

Está difícil compreender como é que uma pessoa “superdotada” não consegue concluir a faculdade?

Não sei se havia algum interesse do antigo regime em impedir o meu avanço académico. Mas verdade se diga, fui perseguido ao ponto de o meu processo individual desaparecer na Faculdade de Direito, durante oito anos. Em 2008, quando parecia que tudo iria terminar, lá consegui entrar para o terceiro ano, cansado com tudo e todos. Em 20 anos de faculdade, não consegui avançar mais do que o terceiro ano. Quando regressei para tentar concluir os meus estudos, fui forçado a fugir da escola por razões políticas.

Já pensou no próximo livro?

Com as crónicas que escrevo posso editar vários livros, é só recolher.

Conta com algum patrocínio?

Tenho promessas da “Edições Novembro” de publicar o meu livro e de mais dois escritores, nomeadamente, o Adriano Mixinge e o Luís Kandjimbo, que serão os primeiros.

“A controvérsia, além de animar, traz evolução”

Tens muitos amigos?

Agora não. Quando fui director do “Semanário Angolense”, cheguei a pensar que tinha muitos amigos. Com a infelicidade que tenho, são poucos os que dão a cara, mesmo sabendo que eu preciso. Já não tenho a mesma capacidade para resolver os meus problemas sociais e económicos, vejo-me, muitas vezes, obrigado a recorrer a esmolas para sobreviver. É extremamente complicado viver com uma reforma de menos de 200 mil kwanzas. Além da família e a casa que tenho para cuidar, preciso de comprar os medicamentos, que não ficam nada baratos.

Para quem lhe segue nas Redes Sociais pode facilmente perceber que o Salas está sempre envolvido em polémicas. É uma pessoa polémica?

Adoro polémicas!

Muitos consideram essa tua propensão para as polémicas um ego, até certo ponto, exacerbado. É verdade?

Gosto de controvérsia. Às vezes penso que há paz a mais no Facebook. Depois, não tenho mais nada a fazer, apesar dessa minha propensão para essas coisas vir de há muito. Acho que a controvérsia, além de animar, traz evolução. É preciso haver luta de contrastes para haver desenvolvimento. Recentemente disse que não me lembrava que algum presidente angolano tivesse sido recebido na Casa Branca, mas lembrava-me do Savimbi. Aquilo deu uma confusão no Facebook, que alguém me advertiu que não devia promover um terrorista nessas plataformas. Enfim, uma linguagem muita atrasada de um radical do MPLA.

E o teu ego?

As minhas polémicas não têm nada a ver com o ego. Gosto de coisas que trazem alguma evolução. A minha liberdade intelectual me permite abordar temas polémicos. Às vezes até, por mero azar, basta ouvir o nome do Salas para surgir a polémica. Isso é assim em tudo que eu entro. Se estiver a jogar futebol ou a fazer outra coisa qualquer, basta uma falha para virem todos contra o Salas. É uma coisa que acontece com muita regularidade, mesmo nos debates públicos em que marco presença.

Pode citar alguns exemplos?

O “Chá da Manhã”, do engenheiro António Venâncio. Basta me preparar para falar, aparece logo alguém para me cortar. Uma vez estive num debate na Rádio Nacional, com o Teixeira Cândido e o Honorato Silva, não me deixavam falar

A passagem pelo “Semanário Angolense”

 e as desavenças com Graça Campos

Como é que foi parar ao jornal Angolense?

Sou jornalista, mas fora do activo, desde Maio de 2016, portanto, seis anos depois de assumir o cargo de director do “Semanário Angolense”. Fui o terceiro e último director desse jornal que, acho, era um dos mais influentes do País. Tenho passagem pelo Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, Angop, Folha8, TPA e pelo Arquivo Histórico Nacional. Quando vou para o Angolense, estava à espera de um emprego na Executive Center. Tinha largado o Folha8 e havia promessas neste sentido, mas depois disseram-me que podia escrever para outros títulos, enquanto aguardava. Depois de escrever um texto assinado para o Angolense, a Executive Center recusou a minha candidatura e aceitaram apenas o Fernando Martins.

Só por isso viu vetado o seu acesso na Executive Center?

O acesso era difícil para os pretos. Se calhar até agora. Na revista da TAAG, tu contavas nos dedos das mãos o número de pretos que tinha lá. Se calhar tive a sorte de ter lá o falecido Paulo Pinha, para ser admitido como colaborador.

As admissões não eram por mérito próprio?

Então, os pretos eram todos medíocres!? Havia pessoas que não assinavam, mas tinham lá os nomes, desde que fosse mas “clarinho”. Se bem me lembro, os únicos pretos que estavam lá era eu, o Jomo e o mais velho Raul David.

A sua rejeição na Executivo Center ditou a sua ida para o Angolense?

Depois desses altos e baixos, acabei mesmo por ficar no Angolense. Estive lá desde o início como editor de Sociedade, mas fazia muito mais do que isso. Estavam a dar os primeiros passos, a situação era mesmo difícil. Aos fins-de-semana davam-nos alguns valores. Há dias, o Graça Campos teve a deselegância de dizer que no Angolense, eu não era imprescindível.

E como é que reagiu às declarações do Graça Campos?

Isso é uma pura mentira. E tem muitos exemplos para comprovar.

É recorrente a troca de mimos entre o Salas Neto e Graça Campos?

Não, isso não é verdade. O problema é que o Graça gosta de pensar que é a sumidade do jornalismo angolano, mas, há dias, tive que lhe dizer que ele não passa de um cabulador. Por trás disso vêm outras questões encobertas. Pensou que só ele é que podia fazer o jornal. Daí essa rivalidade. Ele pensava que sem ele, o Jornal Angolense iria morrer, mas não morreu. Aguentei o jornal durante sete anos.

Como é que chegaste a director do Angolense?

Quando eles são forçados a vender o jornal, o Graça sai imediatamente. O Silva Candembo passou a director e o Severino Carlos a adjunto. Eu passei a editor-chefe. O título passou para o controlo de um outro proprietário, a Média Investe, mas nós sabíamos a quem, de facto, o título estava ligado. Por desacordo com o novo patrão, o Severino também acabou por sair.

Há quem chegou a considerar a tua ascensão uma traição?

Nada disso. Quando o Severino apresentou as exigências como condição para continuar à frente do Jornal e, diante da recusa dos novos proprietários, falámos com as pessoas que tinham recebido o dinheiro com a venda do Jornal que, comenta-se agora, esteve à volta dos quatro milhões de dólares, para saber se havia um fundo de apoio para um eventual movimento grevista, mas eles recusaram-se em apoiar. Eu tinha uma família para sustentar e não tinha como me desempregar. Apesar dos condicionalismos, acabei por aceitar o cargo de director, com a diferença de que o Graça tinha o céu como limite e eu os meus patrões. Fui taxado de traidor, mas não tinha como.

É um jornalista com uma folha de serviço recheada, mas  sentes-te discriminado no jornalismo angolano?

Sim. Basta ver que nunca ganhei um prémio. Qualquer jornalista honesto deve questionar-se porquê que o Salas Neto nunca ganhou um prémio. A partir da altura que perdi o olho e passei a usar prótese estive sempre sujeito à discriminação.

E os teus valores, a tua competência?

Mesmo no Jornal de Angola era sempre subalternizado. Era sempre adjunto deste ou daquele. Nunca era o editor, era sempre o sub.  Idem na Angop.  As pessoas que estiveram sempre à minha frente, na Angop, eram sempre mais “cabuenhas” do que eu, a olhos vistos.

Actualmente, como avalia o estado do jornalismo angolano?

Acompanho a Rádio Nacional, a Rádio Ecclésia e a EuroNews, a nível externo. Mas a julgar pelas grandes “makas” que aconteceram recentemente, com TPA a não dar a devida cobertura, não sei porque razão, a chegada do antigo Presidente, foi um forte sinal de que não estamos lá muito bem. A avaliação que faço é que está muito abaixo do razoável. Quando o Presidente João Lourenço chegou ao poder, tivemos grandes melhorias em termos de liberdades, mas parece haver um grande retrocesso a nível das liberdades. Os órgãos públicos estão com uma linha editorial horrível, em termos de imparcialidade. Têm um tratamento muito discriminatório para com os partidos da oposição e parece mesmo que voltámos ao velho paradigma. A grande diferença é que, ao contrário do que acontecia, já se mostra um pouco mais da realidade do País, ao invés daquele país cor-de-rosa que tínhamos no “tempo da outra senhora”. Em termos políticos, estamos muitos furos a baixo, muito atrasados.

Qual é a sua opinião sobre a polémica que envolveu a UNITA, a TPA e a TV Zimbo?

Uma das piores coisas que um partido da oposição pode fazer é comprar briga com os jornalistas, sejam dos órgãos públicos ou privados.

Já pensou no próximo livro?

Com as crónicas que escrevo posso editar vários livros, é só recolher.

Conta com algum patrocínio?

Tenho promessas da Edições Novembro de publicar o meu livro e de mais dois escritores, nomeadamente, o Adriano Mixinge e o Luís Kandjimbo, que serão os primeiros.

O que é que gostarias de fazer neste momento?

Gostaria de trabalhar, ter um emprego que me ajudasse a não viver permanentemente de mão estendida.

É teu sonho conseguir um emprego?

Sim, ainda não estou acabado. Ainda consigo trabalhar numa redacção.

Perda da visão, um drama da vida real

Pode fazer uma referência aos momentos mais difíceis que marcaram a tua vida?

Pela negativa, foi quando perdi o olho direito, a morte de dois irmãos e a perda da bolsa de estudos.

Quando e como começou a perder a visão?

Perdi a vista direita em Março de 1971, aos 11 anos, numa briga com dois rapazes brancos. Fui reformado precocemente, na sequência de um glaucoma, que cegou a última vista que tinha.

Como te sentiste quando deste conta que a tua visão não tinha hipóteses de cura?

O primeiro sentimento foi de desespero. Foi-me diagnosticado glaucoma, em 2012, no Brasil. Não tinha hipóteses, mas podia retardar um pouco a cegueira. Fiz um tratamento num consultório no Brasil e mandaram-me regressar dois anos depois. Acontece que, quando regressei, o consultório já não existia. Tudo poderia ter sido melhor se tivessem detectado a glaucoma em tempo útil. Eu estava a cegar e os médicos iam ajustando a graduação como medida de cura, quando na verdade deveriam ir ao fundo da questão para investigar o que eu realmente tinha. Se calhar teriam reduzido os efeitos. Por exemplo, se tivesse um tempo determinado de 10 anos para chegar a cegueira, eles poderiam ter retardado 20 anos.

Existia essa possibilidade?

Depois de ser diagnosticado, ainda aguentei 3 anos, fui ao melhor instituto da vista em Espanha, onde fui operado, mas já não havia nada a fazer, era apenas para estancar. Já era muito tarde.

Depois da cegueira, de onde vieram os primeiros apoios. Se bem me lembro, a esta altura falava muito em suicídio?

É um facto, mas percebi depois que era possível a vida depois da cegueira. Mas, na verdade, foi o que eu considero o “espírito de missão”, que prevaleceu. Tenho uma filha e um neto que dependem, em grande medida, de mim. Considero que seria um grande pecado suicidar-me e deixá-los desamparados. Por isso, mesmo sem gostar, senti-me na obrigação de continuar a viver e me sacrificar, por causa deles.

Da cegueira ao domínio do computador, como é que foi esta transição?

Por mero acaso, conheci um menino que considero o meu ídolo. O Lourenço Diogo, é funcionário da Sonangol. Ficou cego aos 14 anos. Ele faz coisas que me deixam admirado. Ele é que vai instalar o programa que preciso no meu computador.

Como o conheceu?

Por acaso. Acho que foi através de um programa da Rádio Nacional sobre glaucoma. Ele perguntou-me o que gostaria de aprender e disse-lhe que gostaria de aprender o braillie, para poder concluir o meu curso em Coimbra. O jovem, como domina a técnica, vinha a minha casa com o técnico e deu-me um curso intensivo de duas semanas. Chamam Braille, é um programa específico com base na audição. Tens que ouvir bem para não cometer erros. É um computador com teclado normal, com uns segredos nas teclas, que permite a qualquer um, na minha condição, escrever e corrigir textos. Há pessoas que não acreditam, mas isso vai me permitindo fazer às vezes alguns biscates.

O que é que queria que lhe acontecesse na vida?

Recuperar a visão.

Achas isso possível?

A Ciência evoluiu muito neste capítulo e acho que daqui a mais uns anitos vamos ter o olho biônico que vai facilitar o implante para pessoas em situação idêntica à minha.

Estarás em condições de te candidatares para esse implante?

O preço, com certeza, não está ao bolso de qualquer um. Fala-se em 150 mil dólares para um implante. Mas quando chegar a hora, espero contar com o apoio de toda a sociedade angolana, até do mais alto Mandatário da Nação.

“Sou do MPLA, fui do tempo das ratificações”

É do MPLA?

Sou do MPLA, então não sabes? Sou do tempo das ratificações. Neste momento, não tenho cartão de militante, porque o meu Cap desapareceu. Não posso esconder isso, nunca deixei de ser.

O Cap desapareceu?

Sim, não sei muito bem as razões, mas acho que já não se faz política sem dinheiro. Tem havido umas tentativas de reactivação, mas não sei concretamente as quantas andam as coisas. Recebi uma proposta para secretário para a comissão de moradores, mas não sei no que isso vai dar precisamente.

Admites a hipótese de se enquadrar no Cap da tua zona em caso de reabertura?

Sim, mas acho que é preciso mudar muita coisa. Continuamos a utilizar práticas que fazem parte do passado. É preciso mudar isso. Perdemos muito tempo com coisas fúteis.

E foi ratificado?

Claro que sim, apesar de alguém tentar chumbar a minha ratificação, consegui passar. A pessoa indicada para me ratificar foi um dos meus antigos colegas, a quem dei muitas palmatórias na escola. A professora era minha “panca” e quando tinha que castigar alguém era a mim que ela indicava para executar a “sentença”. Tentou inviabilizar a minha ratificação, mas não conseguiu.

E qual foi o argumento que utilizou?

Disse que o camarada Salas não podia ser ratificado, porque bebia muito.

Por diversas vezes, manifestou interesse em concorrer às autarquias. Se as eleições fossem hoje estaria em condições de apresentar a candidatura?

As eleições nunca mais aparecem e, à medida que o tempo vai passando, a idade também avança e com menos disponibilidades para fazê-lo. Na minha condição actual é mais difícil agora, mas não ponho de parte esta hipótese.

Acha que tem hipótese de vencer?

Porquê que não? Lá vem vocês com a vossa discriminação. Quem vai ao jogo tem que estar confiante em alguma coisa. Só parto em desvantagem se houver algum preconceito. Já ouvi alguém dizer que não seria de bom tom uma eventual participação minha nas autarquias porque, mesmo em caso de vitória, isso iria resultar em mais gastos, em relação a um autarca “normal”. E vai mais longe desaconselhando-me a concorrer porque tinha que encarar eleitores olho no olho. Em resposta, perguntei-lhe se para um vereador tratar de um assunto de saneamento básico com a comunidade era necessário ir ao WC ver o que ele faz.

Há exemplos de pessoas com deficiência visual que já exerceram cargos políticos?

Há pessoas cegas em outros países que chegam a ministros e, nesse caso concreto, gosto de citar o caso de David Blunkett, que foi ministro nos três governos de Tony Blair. Se for aqui, vão me chamar feiticeiro. David Blunkett foi, em 1969, o mais jovem autarca do Reino Unido. Entre 1997 e 2001, foi ministro do Interior. Entre 2001 e 2004, ministro do Trabalho e Pensões. É cego desde a nascença, o que não o impediu de fazer carreira política. 

Subsídio de reforma e apoios de amigos

Profissionalmente, qual era o teu sonho?

O meu sonho era ser piloto ou agente secreto. O sonho de piloto morreu logo depois de perder a primeira vista e a de agente secreto também não passou de sonho. Feliz ou infelizmente, acabei por não ser nem bófia nem bufo. Acabei no Jornalismo.

Recebe muitos apoios?

Tenho recebido o apoio de algumas pessoas, dependendo do bom humor de cada um. Às vezes ligo para alguns para pedir, mas, no fundo, a vida no nosso País foi sempre assim. Fomos formatados para sermos pedintes e, na minha condição de cego, piora um pouco. Às vezes, passo humilhações. Existem pessoas que já não me atendem o telefone, porque, quando o telefone chama, pensam logo que um gajo já quer pedir dinheiro, quando na realidade é só para saber se o “Primeiro de Agosto” ganhou.

É possível citar alguns nomes dos que te abrem as portas?

Tenho ajuda pontual do meu irmão cassule, o Eduardo e alguns amigos do bairro, como o Mimoso, Pírula e o Maninho Tripa, o Sabino, o Zé Dias, o Costinha.

Vives de quê?

Vivo da pensão de reforma e do subsídio que a Edições Novembro me dá como colunista do Jornal Metropolitano de Luanda.

Trabalhar para não viver

de mão estendida

Recebeste um computador de presente da ministra de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira?

É uma cidadã que respondeu a um requerimento público, o qual agradeço muito. Na verdade, com os meus rendimentos, eu nunca conseguiria comprar o computador.

Fez, como disse, um pedido público, mas recusa de forma veemente a “vaquinha”?

De uma vez por todas, é preciso fazer aqui o seguinte reparo. Quando fizer um pedido público não é para “vaquinhas”. Não sei se estou a me fazer entender. É para alguém que tenha dinheiro e, de sua livre e espontânea vontade, se apreste em ajudar. É público, mas não é para “vaquinhas”. Eu quase que me passo quando me falam em “vaquinhas”.

O que é que tem a “vaquinha”?

É pessoal.

Como te sentiste ao receber o presente?

Bom, fazer um pedido desses não deixa de ser um pouco humilhante, mas não tinha outra hipótese. Foi muito bom, para mim, aparecer a senhora ministra ou melhor a cidadã Carolina Cerqueira para me presentear com o computador.

Gosta de dançar?

Tu sabes, me conheces muito bem. Danço muito. Mesmo com essas limitações ainda escangalho, com aquela cena que as mulheres gostam.

Que cena é que as mulheres gostam?

A minha ginga, o meu estilo assim um pouco especial, que elas gostam. Sou muito convidado para dançar.

PONTO DE ENCONTRO DOS “BALOEIROS”

A Pedra do Feitiço?

Também foste desse tempo, essas experiências da vida. À semelhança dos jovens que têm, hoje, a sua Mutamba (locais de encontro), nós também tínhamos a nossa. Éramos um grupo de jovens a quem chamavam os “Baloeiros” que muita gente pensava que eram bandidos e fumavam  liamba.

E não era assim?

A maior parte estudava, salvo algumas excepções de casos irremediavelmente perdidos.

O que era a Pedra?

A pedra era uma cabine de transformação de energia, com uns degraus e uma placa que fazia o sítio ideal para sentarmo-nos. Fica situada na esquina da C-5, a escassos metros do antigo acampamento dos cubanos. Era aí o nosso sítio. Quem quisesse fumar liamba fumava à vontade, era consentido e não havia proibições. Depois, apareceram alguns bandidos famosos que acabaram por estragar tudo.

O que é que se fazia concretamente na Mutamba?

Conversávamos, mas também jogávamos futebol e dávamos grandes farras, que era o forte dos “Baloeiros”. Tínhamos grandes dançarinos no grupo e “patávamos” em muitas festas. Entrávamos como “patos” e acabávamos por nos transformar nos grandes senhores da festa. Todas as damas queriam dançar connosco. Colonizávamos a festa toda por via da dança. Isso chegou a provocar lutas por causa de ciúmes. Os donos das festas chegavam a perder as namoradas que, depois da primeira dança, já não aceitavam outro senão os integrantes do grupo. Danças que muitas vezes terminavam em namoro.

A forma despreocupada como falas das paixões antigas não incomoda a tua esposa?

A única vez que a vi com ciúmes a sério foi numa festa de um primo dela. Éramos ainda namorados. Tinha chegado de Portugal, bem bangão, e apareceram umas meninas assanhadas. E a última foi há bem pouco tempo. Mas de uma forma geral ela não faz grandes cenas de ciúmes.

Parece ter uma predilecção especial pela praça dos “traiçoeiros”. O que é que este espaço representa para si?

Se calhar agora até pode ser uma coisa fictícia. É um sítio onde nós sentamos, em frente a uma casa onde vendem cerveja. Transformámos o espaço na nossa Mutamba e demo-lo um nome.

Qual é a origem do nome?

Muitos pensam que fui eu quem atribuiu o nome, mas na verdade foi o DJ Projecta. Ele estava com problemas com a mulher e sempre que nos encontrasse pensava que estávamos a falar dele e lançava uns impropérios contra nós, onde não escapava o “sóis traiçoeiros”. E o nome ficou! Eu apenas tratei de o institucionalizar. A “ Placa dos Traiçoeiros” já teve o mérito de receber algumas figuras importantes da nossa sociedade, como o bispo de Cabinda, dom Belmiro Tchissengueti.

E quem são os traiçoeiros?

Eu não sou traiçoeiro!

Só quis saber quem são realmente os traiçoeiros?

Tem o comandante Chico Groy, o ti Perdido, a Filó Brito, que é a vice-presidente. Fui indicado a presidente, com direito a cerimónia de posse e tudo. O primeiro é o chefe dos Serviços de Segurança e o segundo, o meu secretário particular.

Fonte: J.Kwanza

Colin Powell, antigo secretário de Estado norte-americano morreu hoje vítima de complicações de Covid-19, aos 84 anos de idade. A informação foi avançada pela família, em comunicado. Colin Powell foi o primeiro negro a liderar a diplomacia americana.

Colin Powell, ex-secretário de Estado americano, morreu vítima de Covid-19.

A família revelou, numa nota publicada nas redes sociais, que Colin Powell estava totalmente vacinado e aproveitou a ocasião para agradecer aos profissionais de saúde que o trataram no hospital Walter Reed, localizado nas periferias de Washington. O hospital é conhecido por receber e tratar, ao longo dos anos, os chefes de Estado americanos.

Perdemos um marido, pai, avô e um grande americano, notável e amoroso“, disse a família na nota publicada.

Colin Powell serviu como principal oficial militar dos Estados Unidos da América e também como diplomata, tendo exercido na sua maioria cargos durante os mandatos de George W.Bush.

O ex-Presidente norte-americano já reagiu à morte de Colin Powell e recordou-o como “um grande servidor do Estado” e uma “pessoa bastante respeitada“.

George W. Bush disse ainda que muitos foram os “presidentes que confiaram no julgamento e na experiência do general Powell“, uma pessoa “muito respeitada em casa e no exterior“.

Colin Powell foi o primeiro negro a ocupar cargos de uma importância fulcral no governo dos Estados Unidos da América. Foram eles conselheiro de Segurança Nacional na administração de Ronald Reagan, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de George W. Bush durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991, e, por último, secretário de Estado de George W.Bush, tendo-se destacado como uma figura importante durante a Guerra do Iraque.

O defensor da guerra no Iraque fez um discurso mediático no Conselho de Segurança da ONU em 2003 onde alegou que existiam armas de destruição em massa no Iraque, argumentos que levaram com que os EUA invadissem o país.

Anos mais tarde, o general considerou que o seu discurso tinha constituído uma “mancha” na sua reputação, uma vez que foi acusado de facultar informações falsas.

É uma mancha porque fui eu que fiz essa exposição em nome dos Estados Unidos da América para o mundo e ela sempre fará parte da minha história“, disse, na altura.

Colin Powell foi ainda um líder incontestável na luta contra o terrorismo, após os ataques do 11 de Setembro de 2011, tendo sido uma peça fulcral para delinear a estratégia dos Estados Unidos da América a partir desse momento.

Fonte: RFI

José Maria Neves foi eleito Presidente à primeira volta em Cabo Verde. O candidato do PAICV, de centro-esquerda, foi eleito por 51,2%, segundo dados provisórios e sucede a Jorge Carlos Fonseca, que cumpriu o seu segundo e último mandato.

Numa altura em que os votos ainda não foram todos contabilizados, cerca de metade dos eleitores inscritos votou, numas eleições com sete candidatos.

A prioridade do mandato de José Maria Neves, o quinto Presidente cabo-verdiano , vai ser o de ultrapassar a crise da pandemia da Covid-19, como nos explicou, em entrevista à RFI.

José Maria Neves: Estamos numa pandemia. Há um grande desgaste físico, emocional das pessoas. Há uma grande vulnerabilidade também. Esta pandemia provocou muitas perdas e, precisamente por isso, considero que é importante o facto de se ter resolvido essa questão logo à primeira volta. Mais 15 dias de campanha seria muito desgastante.

Qual é que vai ser a sua estratégia para reconstruir o país?

Eclesiastes, na Bíblia, diz que há um tempo para tudo. Há um tempo para disputa, há um tempo para desacordos, há um tempo para dissensos, mas há um outro tempo e é este o tempo de consenso, de acordos, de entendimentos. Serei um Presidente que irá costurar pontes, entendimentos, consensos ao nível do país para unir a nação global cabo-verdiana.

Ontem falava precisamente de unir, construir, proteger.

É isso. Unir, cuidar, proteger o país e aproveitar todas as capacidades e todas as competências. Um Presidente aberto a todas as sensibilidades políticas e sociais, capaz de congregar a nação em torno dos grandes desígnios nacionais. O nosso grande adversário é a crise que se agravou agora com a pandemia e temos, por um lado, de trabalhar de mãos dadas.

Dar as mãos também ao governo de Ulisses Correia e Silva do MPD? Ontem à noite, no seu primeiro discurso à nação, falou de colaboração. Como é que encara esta coabitação, já que é a segunda vez que acontece, depois de uma primeira vez e única em 2011? 

O Presidente é árbitro e moderador do sistema político. Serei um árbitro imparcial que adverte quando é necessário, mas que aconselha, sugere, apoia e que faz as articulações necessárias para que o país ganhe. Eu quero ser um factor positivo e pretendo, sobretudo, puxar o país para cima e aqui a estabilidade é um recurso estratégico.

Cabe ao Presidente criar todas as condições para que o governo e todos os órgãos de soberania cumpram a missão que devem cumprir nos termos da Constituição da República e, sobretudo, mobilizar a sociedade cabo-verdiana para os desafios destes novos tempos. Eu serei um Presidente destes novos tempos. Perguntaram-me se de entre os três presidentes da democracia, António Mascarenhas Monteiro, Pedro Pires e Jorge Carlos Fonseca, qual é que eu seria. Eu disse que seria os três mais alguma coisa.

Portanto, não há qualquer registo de tensão entre os dois grandes partidos cabo-verdianos (MPD e PAICV)?

Não. O Presidente não tem maioria. O Presidente quer sobretudo trabalhar no sentido do reforço da confiança mútua entre os partidos. Isso é fundamental para conseguirmos os consensos que são necessários. Há desafios imediatos, importantíssimos que os partidos devem assumir no parlamento para enfrentar a crise. Estarei disponível para ser factor de construção de consensos.

Há duas semanas quando falávamos e ainda era candidato e concedeu uma entrevista à RFI disse que a sua prioridade iria ser enfrentar e ultrapassar a crise pandémica que se vive no país. Imagino que hoje, presidente eleito, continue a ser essa a sua prioridade?

A minha grande prioridade e ontem expressei isso mesmo ao senhor primeiro-ministro, durante a conversa telefónica que tivemos, que pode contar comigo e que Cabo Verde pode contar comigo. Eu serei factor de entendimento, de construção de consensos para enfrentarmos os desafios. Eu quero que resgatemos a nobreza da política. Sei que há desgaste dos políticos e da política.

Este é o terceiro escrútinio em pouco mais do que um ano?

Sim e a minha perspectiva é de ser também o principal pedagogo do país, contribuir para a regeneração da política e a melhoria da imagem dos políticos no país.

A abstenção foi também um dos pontos importantes do escrútinio de ontem que superou 50%. Os resultados ainda são provisórios. Pergunto-lhe se houve um cansaço generalizado dos cabo-verdianos e se não teria sido uma boa ideia juntar as eleições num só dia.

Juntar as eleições, não sei, tendo em conta o nosso sistema de governo. Eventualmente, as legislativas e as autárquicas talvez, não sei, mas os mandatos têm durações diferentes. São questões que teremos de discutir e ver. Eventualmente, reduzir a legislatura que também é de 5 anos, tal como o mandato presidencial. Não sei se seria muito conveniente realizar legislativas e presidenciais ao mesmo tempo. Poderia ser muito confuso e podíamos ter a tentação de alguém querer escolher o campo, o árbitro e o varo.  Quanto à abstenção, já tivemos abstenções mais elevadas.

64% em 2016.

Sim. Tivemos mais de 64% de abstenção em 2016 e a abstenção nas eleições presidenciais, curiosamente, tem sido elevada, mesmo num outro contexto, então não será só por causa do cansaço, não é? Não tenho presente a abstenção nas legislativas, mas também foi elevada.

Existe uma necessidade de rever também a Constituição cabo-verdiana?

É claro que haverá sempre pontos a serem adaptados. Não vejo a necessidade de se mexer no sistema de governo. O sistema de governo funciona. Temos um sistema semi-presidencialista que tem garantido a estabilidade constitucional, desde logo, mas também a estabilidade política e institucional, mas há aspectos que se relacionam com a justiça que devem ser melhorados. No essencial, a Constituição tem provado, eventualmente, toda a problemática do poder regional, que é uma discussão muito forte neste momento em Cabo Verde. Eu acho.

E que é uma questão muito importante para si?

Claro. Trouxe essa questão. Vou despoletar também um debate nacional relativamente a esta matéria para não ficar apenas um espaço de disputa partidária, que eu acho que é o principal problema político que temos em Cabo Verde.

Temos uma excessiva partidarização da sociedade. Temos uma reduzida confiança mútua entre os partidos, o que leva a uma grande crispação e a bloqueios em relação a consensos e entendimentos. Essa desconfiança mútua leva também a algum desgaste da política e dos políticos e, portanto, o Presidente pode ser um factor de coesão, de união, mas também um catalisador de consensos aqui no país.

Ontem soubemos porque o disse no discurso que o candidato da oposição Carlos Veiga lhe ligou. Pergunto-lhe o que é que lhe disse e que outros telefonemas de parabéns recebeu nesta manhã?

Ontem falei com o doutor Carlos Veiga. Ele felicitou-me pela vitória e colocou-se à disposição para continuar a servir Cabo Verde. O que é importante é que todos sejam mobilizados para este novo momento, para enfrentarmos a crise e para conseguirmos o desenvolvimento no horizonte 2030. É isso mesmo que eu lhe disse.

Vou contar com ele, vou contar com todos nesta grande jornada. Ontem também falei com o Presidente da República, com o primeiro-ministro e com o Presidente de Portugal. Hoje de manhã falei com os presidentes da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe. Agora à tarde tenho também alguns presidentes da região que já manifestaram interesse em falar comigo à tarde.

Fonte: RFI

Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão

Uma reunião do Sínodo dos bispos

1. A Igreja de Deus é convocada em Sínodo. O caminho, intitulado «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão», iniciará solenemente nos dias 9-10 de outubro de 2021, em Roma, e a 17 de outubro seguinte, em cada uma das Igrejas particulares. Uma etapa fundamental será a celebração da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2023,[1] a que se seguirá a fase de execução, que envolverá novamente as Igrejas particulares (cf. EC, art. 19-21). Com esta convocação, o Papa Francisco convida a Igreja inteira a interrogar-se sobre um tema decisivo para a sua vida e a sua missão: «O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio».[2] Este itinerário, que se insere no sulco da “atualização” da Igreja, proposta pelo Concílio Vaticano II, constitui um dom e uma tarefa: caminhando lado a lado e refletindo em conjunto sobre o camino percorrido, com o que for experimentando, a Igreja poderá aprender quais são os procesos que a podem ajudar a viver a comunhão, a realizar a participação e a abrir-se à missão. Com efeito, o nosso “caminhar juntos” é o que mais implementa e manifesta a natureza da Igreja como Povo de Deus peregrino e missionário.

2. Uma interrogação fundamental impele-nos e orienta-nos: como se realiza hoje, a diferentes níveis (do local ao universal) aquele “caminhar juntos” que permite à Igreja anunciar o Evangelho, em conformidade com a missão que lhe foi confiada; e que passos o Espírito nos convida a dar para crescer como Igreja sinodal?

Enfrentar juntos esta interrogação exige que nos coloquemos à escuta do Espírito Santo que, como o vento, «sopra onde quer; ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai» (Jo 3, 8), permanecendo abertos às surpresas para as quais certamente nos predisporá ao longo do caminho. Ativa-se deste modo um dinamismo que permite começar a colher alguns frutos de uma conversão sinodal, que amadurecerão progressivamente. Trata-se de objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização, na qual todos nós participamos em virtude do Batismo e da Confirmação. Indicamos aqui os principais, que enunciam a sinodalidade como forma, como estilo e como estrutura da Igreja:

·         fazer memória do modo como o Espírito orientou o caminho da Igreja ao longo da história e como hoje nos chama a ser, juntos, testemunhas do amor de Deus;

·         viver um processo eclesial participativo e inclusivo, que ofereça a cada um – de maneira particular àqueles que, por vários motivos, se encontram à margem – a oportunidade de se expressar e de ser ouvido, a fim de contribuir para a construção do Povo de Deus;

·         reconhecer e apreciar a riqueza e a variedade dos dons e dos carismas que o Espírito concede em liberdade, para o bem da comunidade e em benefício de toda a família humana;

·         experimentar formas participativas de exercer a responsabilidade no anúncio do Evangelho e no compromisso para construir um mundo mais belo e mais habitável;

·         examinar como são vividos na Igreja a responsabilidade e o poder, e as estruturas mediante as quais são geridos, destacando e procurando converter preconceitos e práticas distorcidas que não estão enraizadas no Evangelho;

·         credenciar a comunidade cristã como sujeito credível e parceiro fiável em percursos de diálogo social, cura, reconciliação, inclusão e participação, reconstrução da democracia, promoção da fraternidade e da amizade social;

·         regenerar as relações entre os membros das comunidades cristãs, assim como entre as comunidades e os demais grupos sociais, por exemplo, comunidades de crentes de outras confissões e religiões, organizações da sociedade civil, movimentos populares, etc;

·         favorecer a valorização e a apropriação dos frutos das recentes experiências sinodais nos planos universal, regional, nacional e local.

3. O presente Documento Preparatório põe-se ao serviço do caminho sinodal, de modo especial como instrumento para favorecer a primeira fase de escuta e consulta do Povo de Deus nas Igrejas particulares (outubro de 2021 – abril de 2022), na esperança de contribuir para colocar em movimento as ideias, as energias e a criatividade de todos aqueles que participarem no itinerário, e facilitar a partilha dos frutos do seu compromisso. Para esta finalidade: 1) começa por delinear algumas caraterísticas salientes do contexto contemporâneo; 2) explica resumidamente as referências teológicas fundamentais para uma correta compreensão e prática da sinodalidade; 3) oferece algumas indicações bíblicas que poderão alimentar a meditação e a reflexão orante ao longo do caminho; 4) descreve certas perspetivas a partir das quais reler as experiências de sinodalidade vivida; 5) expõe determinadas indicações para articular este trabalho de releitura na oração e na partilha. Para acompanhar concretamente a organização dos trabalhos, propõe-se um Vade-mécum metodológico, anexado ao presente Documento Preparatório e disponível no site dedicado.[3] O site oferece alguns recursos para o aprofundamento do tema da sinodalidade, como apoio a este Documento Preparatório; entre eles destacamos dois, em seguida mencionados várias vezes: o Discurso na Comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, pronunciado pelo Papa Francisco no dia 17 de outubro de 2015, e o documento A sinodalidade na vida e na missão da Igreja, elaborado pela Comissão Teológica Internacional e publicado em 2018.

I. Apelo a caminhar juntos

4. O caminho sinodal desenvolve-se num contexto histórico, marcado por mudanças epocais na sociedade e por uma passagem crucial na vida da Igreja, que não é possível ignorar: é nas dobras da complexidade deste contexto, nas suas tensões e contradições, que somos chamados «a investigar os sinais dos tempos e a interpretá-los à luz do Evangelho» (GS, n. 4). Delineiam-se aqui alguns elementos do cenário global mais intimamente ligados ao tema do Sínodo, mas o quadro deverá ser enriquecido e completado a nível local.

5. Uma tragédia global como a pandemia de Covid-19 «despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos. Recordamo-nos de que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos» (FT, n. 32). Ao mesmo tempo, a pandemia fez eclodir as desigualdades e as disparidades já existentes: a humanidade parece estar cada vez mais abalada por processos de massificação e fragmentação; a trágica condição que os migrantes vivem em todas as regiões do mundo testemunha quão elevadas e vigorosas ainda são as barreiras que dividem a única família humana. As Encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti documentam a profundidade das fraturas que atravessam a humanidade, e podemos referir-nos a tais análises para nos colocarmos à escuta do clamor dos pobres e da terra e para reconhecer as sementes de esperança e de futuro que o Espírito continua a fazer germinar inclusive no nosso tempo: «O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem se arrepende de nos ter criado. A humanidade ainda possui a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum» (LS, n. 13).

6.                      Esta situação que, não obstante as grandes diferenças, irmana toda a família humana, desafia a capacidade da Igreja de acompanhar as pessoas e as comunidades a reler experiências de luto e sofrimento, que desmascararam muitas falsas certezas, e a cultivar a esperança e a fé na bondade do Criador e da sua criação. No entanto, não podemos negar que a própria Igreja deve enfrentar a falta de fé e a corrupção, inclusive no seu interior. Em particular, não podemos esquecer o sofrimento vivido por menores e pessoas vulneráveis «por causa de abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas».[4] Somos continuamente interpelados, «como Povo de Deus, a assumir a dor de nossos irmãos feridos na sua carne e no seu espírito».[5] Durante demasiado tempo, o grito das vítimas foi um clamor que a Igreja não soube ouvir suficientemente. Trata-se de feridas profundas, que dificilmente se cicatrizam, pelas quais nunca se pedirá perdão suficiente, e que constituem obstáculos, às vezes imponentes, para prosseguir na direção do “caminhar juntos”. A Igreja inteira é chamada a confrontar-se com o peso de uma cultura impregnada de clericalismo, que ela herdou da sua história, e de formas de exercício da autoridade nas quais se insinuam os vários tipos de abuso (de poder, económico, de consciência, sexual). É impensável «uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus»:[6] juntos, peçamos ao Senhor «a graça da conversão e da unção interior para poder expressar, diante desses crimes de abuso, a nossa compunção e a nossa decisão de lutar com coragem».[7]

7.                      A despeito das nossas infidelidades, o Espírito continua a agir na história e a manifestar o seu poder vivificante. É precisamente nos sulcos cavados pelos sofrimentos de todos os tipos, suportados pela família humana e pelo Povo de Deus, que florescem novas linguagens da fé e renovados percursos, capazes não apenas de interpretar os acontecimentos de um ponto de vista teologal, mas de encontrar na provação as razões para voltar a fundar o caminho da vida cristã e eclesial. É motivo de grande esperança que não poucas Igrejas já tenham iniciado encontros e processos de consulta do Povo de Deus, mais ou menos estruturados. Onde eles se distinguiram por um estilo sinodal, o sentido de Igreja voltou a florescer e a participação de todos deu renovado impulso à vida eclesial. Também encontram confirmação o desejo de protagonismo no seio da Igreja por parte dos jovens, e o pedido de uma maior valorização das mulheres e de espaços de participação na missão da Igreja, já apontados pelas Assembleias sinodais de 2018 e de 2019. Nesta linha vão também a recente instituição do ministério laical do catequista e a abertura às mulheres do acesso aos ministérios do leitorado e do acolitado.

8. Não podemos ignorar a variedade das condições em que as comunidades cristãs vivem nas diferentes regiões do mundo. Ao lado dos países em que a Igreja acolhe a maioria da população, representando um ponto de referência cultural para toda a sociedade, existem outros em que os católicos constituem uma minoria; nalguns deles os, católicos, em conjunto com outros cristãos, experimentam formas de perseguição até muito violentas, e não raro o martírio. Se, por um lado, predomina uma mentalidade secularizada que tende a eliminar a religião do espaço público, por outro lado, existe um fundamentalismo religioso que não respeita as liberdades dos outros, alimentando formas de intolerância e de violência que se refletem também na comunidade cristã e nas suas relações com a sociedade. Não raramente, os cristãos adotam as mesmas atitudes, fomentando inclusive divisões e contraposições, até na Igreja. É igualmente necessário ter em consideração o modo como as fraturas que atravessam a sociedade se repercutem no seio da comunidade cristã e nas suas relações com a própria sociedade, por razões étnicas, raciais, de casta ou devido a outras formas de estratificação social ou de violência cultural e estrutural. Tais situações têm um impacto profundo sobre o significado da expressão “caminhar juntos” e sobre as possibilidades concretas de as pôr em prática.

9. Neste contexto, a sinodalidade representa a via mestra para a Igreja, chamada a renovar-se sob a ação do Espírito e graças à escuta da Palavra. A capacidade de imaginar um futuro diferente para a Igreja e para as suas instituições, à altura da missão recebida, depende em grande medida da escolha de encetar processos de escuta, diálogo e discernimento comunitário, em que todos e cada um possam participar e contribuir. Ao mesmo tempo, a escolha de “caminhar juntos” constitui um sinal profético para uma família humana que tem necessidade de um projeto comum, apto a perseguir o bem de todos. Uma Igreja capaz de comunhão e de fraternidade, de participação e de subsidiariedade, em fidelidade ao que anuncia, poderá colocar-se ao lado dos pobres e dos últimos, emprestando-lhes a própria voz. Para “caminhar juntos”, é necessário que nos deixemos educar pelo Espírito para uma mentalidade verdadeiramente sinodal, entrando com coragem e liberdade de coração num processo de conversão, sem o qual não será possível aquela «reforma perene da qual ela [a Igreja], como instituição humana e terrena, necessita perpetuamente» (UR, n. 6; cf. EG, n. 26).

II. Uma Igreja constitutivamente sinodal

10. «Aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo está já tudo contido na palavra “Sínodo”»,[8] que «é palavra antiga e veneranda na Tradição da Igreja, cujo significado recorda os conteúdos mais profundos da Revelação».[9] É o «Senhor Jesus que se apresenta a si mesmo como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6)», e «os cristãos, na sua sequela, são originariamente chamados “os discípulos do caminho” (cf. At 9, 2; 19, 9.23; 22, 4; 24, 14.22)».[10] Nesta perspetiva, a sinodalidade é muito mais do que a celebração de encontros eclesiais e assembleias de Bispos, ou uma questão de simples administração interna da Igreja; ela «indica o específico modus vivendi et operandi da Igreja, o Povo de Deus, que manifesta e realiza concretamente o ser comunhão no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e no participar ativamente de todos os seus membros na sua missão evangelizadora».[11] Entrelaçam-se assim aqueles que o título do Sínodo propõe como eixos fundamentais de uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão. Neste capítulo explicamos sumariamente algumas referências teológicas essenciais em que esta perspetiva se fundamenta.

11. No primeiro milénio, “caminhar juntos”, ou seja, praticar a sinodalidade, era a maneira habitual de proceder da Igreja, entendida como «Povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo».[12] Àqueles que dividiam o corpo eclesial, os Padres da Igreja opuseram a comunhão das Igrejas espalhadas pelo mundo, que Santo Agostinho descrevia como «concordissima fidei conspiratio»,[13] isto é, o acordo na fé entre todos os Batizados. É aqui que se arraiga o amplo desenvolvimento de uma prática sinodal a todos os níveis da vida da Igreja – local, provincial, universal – que encontrou a sua mais excelsa manifestação no concílio ecuménico. Foi neste horizonte eclesial, inspirado no princípio da participação de todos na vida da Igreja, que São João Crisóstomo pôde dizer: «Igreja e Sínodo são sinónimos».[14] Este modo de proceder não esmoreceu nem sequer no segundo milénio, quando a Igreja evidenciou em maior medida a função hierárquica: se na idade média e na época moderna é bem atestada a celebração dos sínodos diocesanos e provinciais, assim como a dos concílios ecuménicos, quando se tratava de definir verdades dogmáticas, os Papas queriam consultar os Bispos, para conhecer a fé de toda a Igreja, recorrendo à autoridade do sensus fidei de todo o Povo de Deus, que é «infalível “in credendo”» (EG, n. 119).

12. O Concílio Vaticano II ancorou-se neste dinamismo da Tradição. Ele põe em evidência que «aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que o conhecesse na verdade e o servisse santamente» (LG, n. 9). Os membros do Povo de Deus são irmanados pelo Batismo e «ainda que, por vontade de Cristo, alguns sejam constituídos doutores, dispensadores dos mistérios e pastores em favor dos demais, reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os Fiéis, a favor da edificação do corpo de Cristo» (LG, n. 32). Por conseguinte, todos os Batizados, participantes na função sacerdotal, profética e real de Cristo, «no exercício da multiforme e ordenada riqueza dos seus carismas, das suas vocações, dos seus ministérios»,[15] são sujeitos ativos de evangelização, quer individualmente quer como totalidade do Povo de Deus.

13. O Concílio ressaltou que, em virtude da unção do Espírito Santo recebida no Batismo, a totalidade dos Fiéis «não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do Povo todo quando este, “desde os Bispos até ao último dos Fiéis leigos”, manifesta o consenso universal em matéria de fé e de moral» (LG, n. 12). É o Espírito que guia os crentes para «toda a verdade» (Jo 16, 13). Pela sua obra, «a Tradição apostólica progride na Igreja», porque todo o Povo santo de Deus cresce na compreensão e na experiência, «tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer graças à contemplação e ao estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cf. Lc 2, 19. 51), quer graças à íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer graças à pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade» (DV, n. 8). Com efeito, este Povo, reunido pelos seus Pastores, adere ao depósito sagrado da Palavra de Deus confiado à Igreja, persevera constantemente no ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e na oração, «de tal modo que, na conservação, atuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância de espírito entre os Pastores e os Fiéis»  (DV, n. 10).

14. Por isso, os Pastores, constituídos por Deus «como autênticos guardiões, intérpretes e testemunhas da fé de toda a Igreja»,[16] não tenham medo de se colocar à escuta da Grei que lhes for confiada: a consulta do Povo de Deus não exige a assunção, no seio da Igreja, dos dinamismos da democracia centrados no princípio de maioria, uma vez que na base da participação em qualquer processo sinodal está a paixão partilhada pela missão comum de evangelização, e não a representação de interesses em conflito. Por outras palavras, trata-se de um processo eclesial, que só pode realizar-se «no seio de uma comunidade hierarquicamente estruturada».[17] É na fecunda ligação entre o sensus fidei do Povo de Deus e a função magisterial dos Pastores que se realiza o consenso unânime de toda a Igreja na mesma fé. Cada processo sinodal, em que os Bispos são chamados a discernir aquilo que o Espírito diz à Igreja, não sozinhos, mas ouvindo o Povo de Deus, que «participa também da função profética de Cristo» (LG, n. 12), constitui uma forma evidente daquele «caminhar juntos» que faz crescer a Igreja. São Bento salienta que «muitas vezes o Senhor revela a melhor decisão»[18] a quem não ocupa posições relevantes na comunidade (neste caso, o mais jovem); assim, os Bispos tenham o cuidado de alcançar todos, a fim de que no desenrolar ordenado do caminho sinodal se realize aquilo que o apóstolo Paulo recomenda às comunidades: «Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo: abraçai o que é bom» (1 Ts 5, 19-21).

15. O sentido do caminho ao qual todos somos chamados consiste, antes de mais nada, em descobrir o rosto e a forma de uma Igreja sinodal, em que «cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o “Espírito da verdade” (Jo 14, 17), para conhecer aquilo que Ele “diz às Igrejas” (Ap 2, 7)».[19] O Bispo de Roma, como princípio e fundamento de unidade da Igreja, pede que todos os Bispos e todas as Igrejas particulares, nas quais e a partir das quais existe a Igreja católica una e única (cf. LG, n. 23), entrem com confiança e coragem no caminho da sinodalidade. Neste “caminhar juntos”, peçamos ao Espírito que nos leve a descobrir como a comunhão, que compõe na unidade a variedade dos dons, dos carismas e dos ministérios, tem em vista a missão: uma Igreja sinodal é uma Igreja “em saída”, uma Igreja missionária, «com as portas abertas» (EG, n. 46). Isto inclui a chamada a aprofundar as relações com as outras Igrejas e comunidades cristãs, com as quais estamos unidos mediante o único Batismo. Além disso, a perspetiva de “caminhar juntos” é ainda mais ampla e abrange toda a humanidade, da qual compartilhamos «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias» (GS, n. 1). Uma Igreja sinodal é um sinal profético sobretudo para uma comunidade de nações incapaz de propor um projeto partilhado, através do qual perseguir o bem de todos: praticar a sinodalidade é, hoje para a Igreja, a maneira mais evidente de ser «sacramento universal da salvação» (LG, n. 48), «sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (LG, n. 1).

III. À escuta das Escrituras

16. O Espírito de Deus, que ilumina e vivifica este “caminhar juntos” das Igrejas, é o mesmo que atua na missão de Jesus, prometido aos Apóstolos e às gerações de discípulos que ouvirem a Palavra de Deus e que a puserem em prática. Em conformidade com a promessa do Senhor, o Espírito não se limita a confirmar a continuidade do Evangelho de Jesus, mas iluminará as profundidades sempre novas da sua Revelação e inspirará as decisões necessárias para sustentar o caminho da Igreja (cf. Jo 14, 25-26; 15, 26-27; 16, 12-15). Por este motivo, é oportuno que o nosso caminho de construção de uma Igreja sinodal se deixe inspirar por duas “imagens” da Escritura. Uma sobressai na representação da “cena comunitária” que acompanha constantemente o caminho da evangelização; a outra refere-se à experiência do Espírito, em que Pedro e a comunidade primitiva reconhecem o risco de colocar limites injustificados à partilha da fé. A experiência sinodal do caminhar juntos, no seguimento do Senhor e em obediência ao Espírito, poderá receber uma inspiração decisiva da meditação a respeito destes dois momentos da Revelação.

Jesus, a multidão, os apóstolos

17. Na sua estrutura fundamental, uma cena original aparece como a constante do modo como Jesus se revela ao longo de todo o Evangelho, anunciando o advento do Reino de Deus. Os atores em jogo são essencialmente três (mais um). Naturalmente, o primeiro é Jesus, o protagonista absoluto que toma a iniciativa, semeando as palavras e os sinais da vinda do Reino, sem «preferência de pessoas» (cf. At 10, 34). De várias maneiras, Jesus presta especial atenção aos “separados” de Deus e aos “abandonados” pela comunidade (na linguagem evangélica, os pecadores e os pobres). Com as suas palavras e as suas ações, oferece a libertação do mal e a conversão à esperança, em nome de Deus Pai e na força do Espírito Santo. Não obstante a diversidade das chamadas e das respostas de acolhimento do Senhor, a caraterística comum é que a fé emerge sempre como valorização da pessoa: a sua súplica é ouvida, à sua dificuldade presta-se ajuda, a sua disponibilidade é apreciada, a sua dignidade é confirmada pelo olhar de Deus e restituída ao reconhecimento da comunidade.

18.Com efeito, a ação de evangelização e a mensagem de salvação não seriam compreensíveis sem a abertura constante de Jesus ao interlocutor mais vasto possível, que os Evangelhos indicam como a multidão, ou seja, o conjunto de pessoas que o seguem ao longo do caminho, e às vezes até o perseguem, na esperança de um sinal e de uma palavra de salvação: eis o segundo ator da cena da Revelação. O anúncio evangélico não se dirige unicamente a poucos iluminados ou escolhidos. O interlocutor de Jesus é “o povo” da vida comum, o “qualquer um” da condição humana, que Ele coloca diretamente em contacto com o dom de Deus e a chamada à salvação. De um modo que surpreende e às vezes escandaliza as testemunhas, Jesus aceita como interlocutores todos aqueles que sobressaem da multidão: ouve a lamentação apaixonada da mulher cananeia (cf. Mt 15, 21-28), que não pode aceitar ser excluída da bênção que Ele traz; abandona-se ao diálogo com a Samaritana (cf. Jo 4, 1-42), não obstante a sua condição de mulher social e religiosamente comprometida; solicita o ato de fé livre e reconhecido do cego de nascença (cf. Jo 9), que a religião oficial tinha descartado como alheio ao perímetro da graça.

19. Alguns seguem Jesus mais explicitamente, experimentando a fidelidade do discipulado, ao passo que outros são convidados a regressar à sua vida quotidiana: no entanto, todos dão testemunho da força da fé que os salvou (cf. Mt 15, 28). Entre aqueles que seguem Jesus, destaca-se nitidamente a figura dos apóstolos, aos quais Ele próprio chama desde o início, destinando-os à mediação autorizada da relação da multidão com a Revelação e com o advento do Reino de Deus. A entrada em cena deste terceiro ator não se verifica graças a uma cura ou conversão, mas coincide com o chamamento de Jesus. A eleição dos apóstolos não é o privilégio de uma posição exclusiva de poder e de separação, mas sim a graça de um ministério inclusivo de bênção e de comunhão. Graças ao dom do Espírito do Senhor ressuscitado, eles devem salvaguardar o lugar de Jesus, sem o substituir: não para colocar filtros à sua presença, mas para facilitar o seu encontro.

20. Jesus, a multidão na sua variedade, os apóstolos: eis a imagem e o mistério a contemplar e aprofundar continuamente, a fim de que a Igreja se torne cada vez mais aquilo que é. Nenhum dos três atores pode abandonar a cena. Se Jesus não estiver presente e outra pessoa ocupar o seu lugar, a Igreja tornar-se-á um contrato entre os apóstolos e a multidão, cujo diálogo acabará por seguir o enredo do jogo político. Sem os apóstolos, autorizados por Jesus e instruídos pelo Espírito, a relação com a verdade evangélica interrompe-se e a multidão permanece exposta a um mito ou a uma ideologia a respeito de Jesus, quer o aceite quer o rejeite. Sem a multidão, a relação dos apóstolos com Jesus corrompe-se numa forma sectária e autorreferencial de religião, e a evangelização perde a sua luz, que provém da revelação de si que Deus dirige a quem quer que seja, diretamente, oferecendo-lhe a sua salvação.

21. Além disso, há o ator “extra”, o antagonista, que traz à cena a separação diabólica dos outros três. Diante da perspetiva inquietadora da cruz, há discípulos que vão embora e multidões que mudam de humor. A ameaça que divide e, por conseguinte, impede um caminho comum, manifesta-se indiferentemente sob as formas do rigor religioso, da injunção moral, que se revela mais exigente que a de Jesus, e da sedução de uma sabedoria política mundana, que se julga mais eficaz que um discernimento dos espíritos. Para evitar os enganos do “quarto ator”, é necessária uma conversão contínua. A este propósito, é emblemático o episódio do centurião Cornélio (cf. At 10), precedente ao “concílio” de Jerusalém (cf. At 15), que constitui um ponto de referência crucial para uma Igreja sinodal.

Uma dupla dinâmica de conversão: Pedro e Cornélio (At 10)

22. O episódio narra antes de mais nada a conversão de Cornélio, que chega a receber uma espécie de anunciação. Cornélio é pagão, presumivelmente romano, centurião (oficial de baixa patente) do exército de ocupação, que exerce uma profissão baseada na violência e no abuso. No entanto, dedica-se à oração e à esmola, ou seja, cultiva a relação com Deus e cuida do próximo. De modo surpreendente, o anjo entra precisamente nele, chama-o pelo nome e exorta-o a enviar – o verbo da missão! – os seus servos a Jafa para chamar – o verbo da vocação! – Pedro. Então, a narração torna-se a da conversão deste último, que naquele mesmo dia recebeu uma visão em que uma voz lhe ordena que mate e coma animais, alguns dos quais impuros. A sua resposta é decisiva: «De modo algum, Senhor!» (At 10, 14). Reconhece que é o Senhor quem fala com ele, mas opõe-se-lhe com uma clara rejeição, dado que aquela ordem destrói preceitos da Torá que são irrenunciáveis para a sua identidade religiosa, e que exprimem um modo de entender a eleição como diferença que implica separação e exclusão em relação aos outros povos.

23. O apóstolo permanece profundamente consternado e, enquanto se interroga sobre o sentido do que tinha acontecido, chegam os homens enviados por Cornélio, que o Espírito lhe indica como seus enviados. Pedro responde-lhes com palavras que evocam as de Jesus no horto: «Eu sou aquele a quem procurais» (At 10, 21). Trata-se de uma verdadeira conversão, uma passagem dolorosa e imensamente frutuosa para sair das próprias categorias culturais e religiosas: Pedro aceita alimentar-se com pagãos da comida que sempre tinha considerado proibida, reconhecendo-a como instrumento de vida e de comunhão com Deus e com o próximo. É no encontro com as pessoas, acolhendo-as, caminhando com elas e entrando nas suas casas, que ele se dá conta do significado da sua visão: nenhum ser humano é indigno aos olhos de Deus e a diferença instituída pela eleição não é preferência exclusiva, mas sim serviço e testemunho de alcance universal.

24. Tanto Cornélio como Pedro envolvem outras pessoas no seu percurso de conversão, fazendo delas companheiros de caminho. A ação apostólica cumpre a vontade de Deus, criando comunidade, derrubando barreiras e promovendo o encontro. A palavra desempenha um papel central no encontro entre os dois protagonistas. Cornélio começa a compartilhar a experiência que viveu. Pedro ouve-o e em seguida toma a palavra, comunicando por sua vez o que lhe aconteceu e testemunhando a proximidade do Senhor, que vai ao encontro de cada pessoa para a libertar daquilo que a torna prisioneira do mal e mortifica a sua humanidade (cf. At 10, 38). Esta maneira de comunicar é semelhante àquela que Pedro adotará quando, em Jerusalém, os fiéis circuncidados o repreenderão, acusando-o de ter transgredido as normas tradicionais, nas quais toda a atenção deles parece estar concentrada, menosprezando a efusão do Espírito: «Por que entraste na casa de incircuncisos e comeste com eles?» (At 11, 3). Naquele momento de conflito, Pedro descreve o que lhe aconteceu, assim como as suas reações de consternação, incompreensão e resistência. É exatamente isto que ajudará os seus interlocutores, inicialmente agressivos e refratários, a ouvir e a aceitar o que aconteceu. A Escritura contribuirá para interpretar o sentido disto, como sucessivamente acontecerá no “concílio” de Jerusalém, num processo de discernimento que é uma escuta em comum do Espírito.

IV. A sinodalidade em ação:
roteiros para a consulta do Povo de Deus

25. Iluminado pela Palavra e fundamentado na Tradição, o caminho sinodal enraíza-se na vida concreta do Povo de Deus. Com efeito, apresenta uma peculiaridade que é igualmente um recurso extraordinário: o seu objeto – a sinodalidade – é também o seu método. Em síntese, constitui uma espécie de estaleiro de obras ou experiência-piloto, que permite começar a colher imediatamente os frutos do dinamismo que a progressiva conversão sinodal introduz na comunidade cristã. Por outro lado, não pode deixar de se referir às experiências de sinodalidade vivida, a vários níveis e com diferentes graus de intensidade: os seus pontos fortes e os seus sucessos, assim como os seus limites e as suas dificuldades, oferecem elementos preciosos para o discernimento sobre a direção na qual continuar a caminhar. Aqui, certamente, faz-se referência às experiências ativadas pelo presente caminho sinodal, mas também a todas aquelas em que já se experimentam formas de “caminhar juntos” na vida do dia a dia, mesmo quando o termo sinodalidade nem sequer é conhecido ou utilizado.

A questão fundamental

26. A interrogação fundamental que orienta esta consulta do Povo de Deus, como já foi recordado no início, é a seguinte:

Anunciando o Evangelho, uma Igreja sinodal “caminha em conjunto”: como é que este “caminhar juntos” se realiza hoje na vossa Igreja particular? Que passos o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Para dar uma resposta, sois convidados a:

  1. perguntar-vos que experiências da vossa Igreja particular a interrogação fundamental vos traz à mente?
  2. reler estas experiências mais profundamente: que alegrias proporcionaram? Que dificuldades e obstáculos encontraram? Que feridas fizeram emergir? Que intuições suscitaram?
  3. colher os frutos para compartilhar: onde, nestas experiências, ressoa a voz do Espírito? O que ela nos pede? Quais são os pontos a confirmar, as perspetivas de mudança, os passos a dar? Onde alcançamos um consenso? Que caminhos se abrem para a nossa Igreja particular?

Diferentes articulações da sinodalidade

27. Na oração, reflexão e partilha suscitadas pela interrogação fundamental, é oportuno ter em consideração três níveis em que a sinodalidade se articula como «dimensão constitutiva da Igreja»:[20]

·         o plano do estilo em que a Igreja normalmente vive e atua, que exprime a sua natureza de Povo de Deus a caminho em conjunto e que se reúne em assembleia, convocado pelo Senhor Jesus na força do Espírito Santo para anunciar o Evangelho. Este estilo realiza-se através «da escuta comunitária da Palavra e da celebração da Eucaristia, da fraternidade da comunhão e da corresponsabilidade e participação de todo o povo de Deus, nos seus vários níveis e na distinção dos diversos ministérios e funções, na sua vida e na sua missão»;[21]

·         o plano das estruturas e dos processos eclesiais, determinados inclusive dos pontos de vista teológico e canónico, em que a natureza sinodal da Igreja se manifesta de maneira institucional a nível local, regional e universal;

·         o plano dos processos e eventos sinodais em que a Igreja é convocada pela autoridade competente, em conformidade com procedimentos específicos, determinados pela disciplina eclesiástica.

Embora sejam distintos de um ponto de vista lógico, estes três planos referem-se uns aos outros e devem manter-se unidos de maneira coerente, caso contrário transmite-se um contratestemunho, minando a credibilidade da Igreja. Com efeito, se não se encarnar em estruturas e processos, o estilo da sinodalidade degrada-se facilmente do nível das intenções e dos desejos para aquele da retórica: enquanto processos e eventos, se não forem animados por um estilo adequado, não passam de formalidades vazias.

28. Além disso, na releitura das experiências, é necessário ter em consideração que “caminhar juntos” pode ser entendido de acordo com duas perspetivas diferentes, fortemente interligadas. A primeira diz respeito à vida interna das Igrejas particulares, às relações entre os indivíduos que as constituem (em primeiro lugar, aquela entre os Fiéis e os seus Pastores, também através dos organismos de participação previstos pela disciplina canónica, incluindo o sínodo diocesano) e às comunidades em que se subdividem (de modo particular as paróquias). Em seguida, considera as relações dos Bispos entre si e com o Bispo de Roma, inclusive através dos organismos intermediários de sinodalidade (Sínodos dos Bispos das Igrejas patriarcais e arquiepiscopais maiores, Conselhos de Hierarcas e Assembleias de Hierarcas das Igrejas sui iuris, Conferências Episcopais, com as suas expressões nacionais, internacionais e continentais). Por conseguinte, estende-se à maneira como cada uma das Igrejas particulares integra em si mesma a contribuição das várias formas de vida monástica, religiosa e consagrada, de associações e movimentos laicais, de instituições eclesiais e eclesiásticas de diferentes tipos (escolas, hospitais, universidades, fundações, instituições de caridade e de assistência, etc.). Para finalizar, esta perspetiva abrange também as relações e as iniciativas comuns com os irmãos e as irmãs das demais Confissões cristãs, com os quais partilhamos o dom do mesmo Batismo.

29. A segunda perspetiva tem em consideração o modo como o Povo de Deus caminha em conjunto com toda a família humana. Assim, o olhar contemplará o estado das relações, do diálogo e das eventuais iniciativas comuns com os crentes de outras religiões, com as pessoas afastadas da fé e igualmente com ambientes e grupos sociais específicos, com as respetivas instituições (mundo da política, da cultura, da economia, das finanças, do trabalho, sindicatos e associações empresariais, organizações não governamentais e da sociedade civil, movimentos populares, minorias de vários tipos, pobres e excluídos, etc.).

Dez núcleos temáticos a aprofundar

30. Para ajudar a fazer emergir as experiências e a contribuir de maneira mais rica para a consulta, em seguida indicamos também dez núcleos temáticos que abordam diferentes aspetos da “sinodalidade vivida”. Deverão adaptar-se aos diferentes contextos locais e, periodicamente, ser integrados, explicados, simplificados e aprofundados, prestando atenção particular a quantos têm mais dificuldade em participar e responder: o Vade-mécum que acompanha este Documento Preparatório oferece instrumentos, percursos e sugestões, a fim de que os diferentes núcleos de interrogações inspirem concretamente momentos de oração, formação, reflexão e intercâmbio.

I. OS COMPANHEIROS DE VIAGEM

Na Igreja e na sociedade, estamos no mesmo caminho, lado a lado. Na vossa Igreja local, quem são aqueles que “caminham juntos”? Quando dizemos “a nossa Igreja”, quem é que faz parte dela? Quem nos pede para caminhar juntos? Quem são os companheiros de viagem, inclusive fora do perímetro eclesial? Que pessoas ou grupos são, expressa ou efetivamente, deixados à margem?

II. OUVIR

A escuta é o primeiro passo, mas requer que a mente e o coração estejam abertos, sem preconceitos. Com quem está a nossa Igreja particular “em dívida de escuta”? Como são ouvidos os Leigos, de modo particular os jovens e as mulheres? Como integramos a contribuição de Consagradas e Consagrados? Que espaço ocupa a voz das minorias, dos descartados e dos excluídos? Conseguimos identificar preconceitos e estereótipos que impedem a nossa escuta? Como ouvimos o contexto social e cultural em que vivemos?

III. TOMAR A PALAVRA

Todos estão convidados a falar com coragem e parrésia, ou seja, integrando liberdade, verdade e caridade. Como promovemos, no seio da comunidade e dos seus organismos, um estilo comunicativo livre e autêntico, sem ambiguidades e oportunismos? E em relação à sociedade de que fazemos parte? Quando e como conseguimos dizer o que é deveras importante para nós? Como funciona a relação com o sistema dos meios de comunicação social (não só católicos)? Quem fala em nome da comunidade cristã e como é escolhido?

IV. CELEBRAR

“Caminhar juntos” só é possível se nos basearmos na escuta comunitária da Palavra e na celebração da Eucaristia. De que forma a oração e a celebração litúrgica inspiram e orientam efetivamente o nosso “caminhar juntos”? Como inspiram as decisões mais importantes? Como promovemos a participação ativa de todos os Fiéis na liturgia e o exercício da função de santificar? Que espaço é reservado ao exercício dos ministérios do leitorado e do acolitado?

V. CORRESPONSÁVEIS NA MISSÃO

A sinodalidade está ao serviço da missão da Igreja, na qual todos os seus membros são chamados a participar. Dado que somos todos discípulos missionários, de que maneira cada um dos Batizados é convocado para ser protagonista da missão? Como é que a comunidade apoia os seus membros comprometidos num serviço na sociedade (na responsabilidade social e política na investigação científica e no ensino, na promoção da justiça social, na salvaguarda dos direitos humanos e no cuidado da Casa comum, etc.)? Como os ajuda a viver estes compromissos, numa lógica de missão? Como se verifica o discernimento a respeito das escolhas relativas à missão e quem participa? Como foram integradas e adaptadas as diferentes tradições em matéria de estilo sinodal, que constituem a herança de muitas Igrejas, especialmente as orientais, em vista de um testemunho cristão eficaz? Como funciona a colaboração nos territórios onde estão presentes diferentes Igrejas sui iuris?

VI. DIALOGAR NA IGREJA E NA SOCIEDADE

O diálogo é um caminho de perseverança, que inclui também silêncios e sofrimentos, mas é capaz de recolher a experiência das pessoas e dos povos. Quais são os lugares e as modalidades de diálogo no seio da nossa Igreja particular? Como são enfrentadas as divergências de visão, os conflitos, as dificuldades? Como promovemos a colaboração com as Dioceses vizinhas, com e entre as comunidades religiosas no território, com e entre associações e movimentos laicais, etc.? Que experiências de diálogo e de compromisso partilhado promovemos com crentes de outras religiões e com quem não crê? Como é que a Igreja dialoga e aprende com outras instâncias da sociedade: o mundo da política, da economia, da cultura, a sociedade civil, os pobres…?

VII.  COM AS OUTRAS CONFISSÕES CRISTÃS

O diálogo entre cristãos de diferentes confissões, unidos por um único Batismo, ocupa um lugar particular no caminho sinodal. Que relacionamentos mantemos com os irmãos e as irmãs das outras Confissões cristãs? A que âmbitos se referem? Que frutos colhemos deste “caminhar juntos”? Quais são as dificuldades?

VIII. AUTORIDADE E PARTICIPAÇÃO

Uma Igreja sinodal é uma Igreja participativa e corresponsável. Como se identificam os objetivos a perseguir, o caminho para os alcançar e os passos a dar? Como se exerce a autoridade no seio da nossa Igreja particular? Quais são as práticas de trabalho em grupo e de corresponsabilidade? Como se promovem os ministérios laicais e a assunção de responsabilidade por parte dos Fiéis? Como funcionam os organismos de sinodalidade a nível da Igreja particular? São uma experiência fecunda?

IX. DISCERNIR E DECIDIR

Num estilo sinodal, decide-se por discernimento, com base num consenso que dimana da obediência comum ao Espírito. Com que procedimentos e com que métodos discernimos em conjunto e tomamos decisões? Como podem eles ser melhorados? Como promovemos a participação na tomada de decisões, no seio de comunidades hierarquicamente estruturadas? Como articulamos a fase consultiva com a deliberativa, o processo do decision-making com o momento do decision-taking? De que maneira e com que instrumentos promovemos a transparência e a accountability?

X. FORMAR-SE NA SINODALIDADE

A espiritualidade do caminhar juntos é chamada a tornar-se princípio educativo para a formação da pessoa humana e do cristão, das famílias e das comunidades. Como formamos as pessoas, de maneira particular aquelas que desempenham funções de responsabilidade no seio da comunidade cristã, a fim de as tornar mais capazes de “caminhar juntas”, de se ouvir mutuamente e de dialogar? Que formação oferecemos para o discernimento e o exercício da autoridade? Que instrumentos nos ajudam a interpretar as dinâmicas da cultura em que estamos inseridos e o seu impacto no nosso estilo de Igreja?

A fim de contribuir para a consulta

31. A finalidade da primeira fase do caminho sinodal é favorecer um amplo processo de consulta, para recolher a riqueza das experiências de sinodalidade vivida, nas suas diferentes articulações e aspetos, envolvendo os Pastores e os Fiéis das Igrejas particulares em todos os diversificados níveis, através dos meios mais adequados, em conformidade com as realidades locais específicas: a consulta, coordenada pelo Bispo,  destina-se «aos Presbíteros, Diáconos e Fiéis leigos das suas Igrejas, individualmente ou associados, sem transcurar a valiosa contribuição que pode vir dos Consagrados e das Consagradas» (EC, n. 7). De maneira particular, solicita-se a contribuição dos organismos de participação das Igrejas particulares, especialmente do Conselho presbiteral e do Conselho pastoral, a partir dos quais verdadeiramente «pode começar a tomar forma uma Igreja sinodal».[22] Será igualmente preciosa a contribuição das outras realidades eclesiais às quais o Documento Preparatório for enviado, assim como daqueles que quiserem enviar diretamente a própria contribuição. Finalmente, será de importância fundamental que encontre espaço também a voz dos pobres e dos excluídos, e não somente daqueles que desempenham alguma função ou responsabilidade no seio das Igrejas particulares.

32. A síntese que cada Igreja particular elaborar na conclusão deste trabalho de escuta e discernimento constituirá a sua contribuição para o percurso da Igreja universal. Para tornar mais fáceis e sustentáveis as fases sucessivas do caminho, é importante conseguir condensar os frutos da oração e da reflexão, no máximo, em dez páginas. Se for necessário, para as contextualizar e explicar melhor, poderão ser anexados outros textos como apoio ou integração. Recordamos que o objetivo do Sínodo, e por conseguinte desta consulta, não consiste em produzir documentos, mas em «fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, faixar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender uns dos outros e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, restitua força às mãos».[23]

Índice

I. Apelo a caminhar juntos

II. Uma Igreja constitutivamente sinodal

III. À escuta das Escrituras

                        Jesus, a multidão, os apóstolos

                        Uma dupla dinâmica de conversão: Pedro e Cornélio (At 10)

IV. A sinodalidade em ação: roteiros para a consulta do Povo de Deus

                        A questão fundamental

                        Diferentes articulações da sinodalidade

                        Dez núcleos temáticos a aprofundar

A fim de contribuir para a consulta

Fonte: Vaticano News

O Presidente da Turquia, Recep Erdogan, defendeu hoje, durante a visita a Angola, “uma nova era das relações” entre o seu país e África, garantindo que a aproximação da Turquia aos países africanos pretende criar um mundo mais justo.

Presidente turco defende aproximação a África para um mundo mais justo
Os dois chefes de Estado e suas comitivas

“Nós queremos um mundo mais justo”, disse o chefe do executivo turco no salão nobre do Palácio Presidencial onde foi recebido, durante a manhã, pelo seu homólogo João Lourenço e após a assinatura de sete instrumentos jurídicos para reforçar a cooperação com Angola.

No que considerou ser uma “visita histórica”, cerca de três meses depois de ter recebido o Presidente angolano no seu país, Erdogan salientou a importância de elevar as relações bilaterais entre os dois países e apontou algumas áreas com potencial de cooperação como a defesa, a energia, a cultura, a agricultura, o comércio e o turismo, acrescentando que outro dos objetivos é a facilitação dos vistos.

“Vamos dar os próximos passos para que as relações comerciais avancem”, afirmou, manifestando a vontade de fomentar as trocas comerciais.

“Os nossos empresários vão fazer muitos negócios  que vão contribuir para aumentar o emprego”, destacou, elogiando as reformas que João Lourenço está a empreender.

O chefe de Estado turco elogiou igualmente o contributo de Angola para manter e promover a paz na região e salientou que a Turquia está a inaugurar uma nova era das relações com África, dando como exemplo a importância que atribui à região as 43 embaixada turcas existentes atualmente no continente.

Afirmou que Angola, colonizada por Portugal durante 400 anos, foi alvo de exploração dos seus recursos naturais pelo ocidente, “uma injustiça” que ocorreu também com França, que responsabilizou pela morte de milhares de africanos, “massacrados” em países como o Ruanda e a Argélia.

“Isso não é justo e infelizmente isso continua. Nós queremos um mundo mais justo e para isso precisamos de trabalhar juntos”, exortou Erdogan, dizendo que se “houver medo” a maldade em África irá continuar.

“Temos de procurar os nossos direitos para ter um mundo mais justo”, reforçou, apelando à cooperação.

Erdogan falou ainda sobre os encontros que serão realizados na Turquia nos próximos meses, com foco em África, entre os quais um fórum económico em 21 e 22 de outubro e uma cimeira África-Turquia, entre 16 e 18 de dezembro, para a qual convidou João Lourenço.

O Presidente angolano relembrou a visita recente à Turquia, no final de julho, em que foram também assinados acordos de cooperação e assinalou que a inauguração das ligações aéreas entre os dois países, na semana passada, vai aproximar Luanda da Turquia estimulando as relações económicas e o turismo.

O chefe de Estado sublinhou ainda que os laços entre os dois países vão ser confirmados no futuro, destacando que algumas das empresas que integram a delegação turca estão já a trabalhar com ministros angolanos de diferentes setores nos quais estão interessados em investir.

Joao Lourenço realçou igualmente que Angola ocupa uma posição estratégica no continente, sendo membro de três sub-regiões (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos e Comunidade Económica dos Estados da África Central) e que a aposta que a Turquia está a fazer no reforço dos laços com Angola vai também permitir ao país alcançar estas regiões.

Fonte: Notícias ao Minuto

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